Pela primeira vez, numa iniciativa ousada, um relatório tenta sintetizar informações sobre os impactos da exploração agrícola e pecuária no meio ambiente, em todo o mundo. Apoiado em ações de entidades intergovernamentais, instituições privadas de pesquisas e técnicos de mais de 25 países, o Instituto Mundial de Pesquisas e o Instituto Internacional de Políticas Alimentares acabam de divulgar o documento, denominado ‘‘Agroecossistemas’’, com o objetivo de mostrar um levantamento das condições dos ecossistemas
São avaliações nacionais, regionais e globais, tentando apresentar um quadro atual de como, onde e em que volume o homem interfere nos ecossistemas. Vamos apresentar hoje e na próxima semana alguns trechos deste relatório no nosso espaço de opinião, para estimular o debate deste tema que afeta a vida de todos nós, produtores e consumidores de alimentos.
Os autores mostram que o aumento da produção de alimentos supera a expansão demográfica, alertam sobre o mau uso da água e pedem aos governos que criem políticas de preservação ambiental.
A produção de alimentos tem acompanhado e até superado o crescimento da população mundial. Em média, o fornecimento de alimentos per capita é 24% maior do que em 1961. Mas a produtividade no longo prazo é ameaçada pela crescente escassez de água e pela degradação do solo, que já causaram a redução de 16% na área cultivável, especialmente na África e na América Central.
O uso indiscriminado de pesticidas levou ao surgimento de muitas pragas resistentes e a pecuária intensiva criou problemas de disposição final de detritos e de poluição das águas.
As águas de superfície e subterrâneas, em muitas partes da Ásia, norte da África e América do Norte, estão no limite de extração. A ineficiência dos sistemas de irrigação, segundo o relatório, é tamanha que, em média, menos da metade de toda a água retirada do solo ou da superfície chega às colheitas.
A produção de alimentos pelos agroecossistemas é avaliada em US$ 1,3 trilhão (dado de 1997) e fornece 94% das proteínas e 99% das calorias consumidas pelo homem. O processo produtivo emprega 1,3 bilhão de pessoas.
Os novos processos de produção, os sistemas de irrigação, o surgimento de pesticidas e herbicidas mais eficientes fizeram a produção agrícola crescer muito. Os preços caíram, de acordo com o documento. Em média, os preços reais dos produtos agrícolas são 40% mais baixos do que há 40 anos, período em que a população mundial dobrou para 6 bilhões de pessoas.
Aproximadamente 790 milhões de pessoas do mundo em desenvolvimento ainda são cronicamente subnutridas, e quase 2/3 delas moram na Ásia e no Pacífico. A maior parte da agricultura mundial (59%) é dedicada à produção de cereais. Nos últimos 30 anos, o número de animais criados pelo homem praticamente triplicou, enquanto a produção agrícola dobrou. A crescente demanda por carnes deverá prosseguir, na medida em que o padrão de vida e a renda média continuam a crescer globalmente.
Cerca de 40% da área agrícola explorada apresentam modestas degradações, e 9% dela têm pontos extremamente degradados. Nestes casos, a recuperação do solo ou é extremamente cara ou é quase impossível. Esta degradação é tida como responsável pela redução da produtividade agrícola em 13%.
Estima-se que 20% das terras irrigadas têm problemas de salinização (acúmulo de sais dissolvidos de forma natural ou induzido pelo homem). Análises da dinâmica de nutrientes do solo na América Laina e Caribe indicam que na maioria das culturas o equilíbro de nutirientes é bastante negativo.
As mudanças climáticas globais deverão afetar bastante os regimes de chuvas. A irrigação consome 70% da água retirada dos sistemas de água doce para consumo humano. Daquele total, só entre 30% e 60% são reaproveitados, o que faz da irrigação a maior consumidora de água doce no mundo. Os 17% de terras irrigadas produzem de 30% a 40% das produtos agrícolas mundiais.
A concorrência com outros usos da água, especialmente a água potável ou para uso industrial, será mais intensa nos países ricos. Nestes países, a agricultura poderá depender, cada vez mais, de água reciclada do uso doméstico ou industrial.
As instituições e técnicos que elaboraram este estudo indicam que, se os países quiserem expandir os limites de possibilidade da produção agrícola e obter uma resposta ambiental dos agroecossistemas, será preciso desenvolver novas políticas, tecnologias e arranjos institucionais.
Eles sugerem três linhas estratégicas que poderiam receber atenção dos governos para ajudar a atingir esse objetivo: aumentar a produtividade agrícola; reduzir os impactos ambientais negativos; e reabilitar os bens e serviços ambientais que poderiam ser benéficos para os bens e serviços agrícolas.
O relatório está na internet (http://www.wri.org/wr2000 ou http://www.ifpri.org). Na próxima semana confira mais informações e dados divulgados pelo relatório.

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