Aumenta interesse pela gramínea
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de setembro de 1997
Cláudia Barberato 
O pesquisador Ademir Calegari, da área de solos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em Londrina, só na semana passada atendeu telefonemas de mais de 30 agricultores interessados em informações sobre o milheto. Segundo ele, para quem está colhendo o trigo, a gramínea é uma ótima opção não só para enriquecer o solo, mas para contribuir na produtividade das culturas que virão a seguir, no verão, e não deixar a terra sem cultivo.
O agricultor não deve deixar o solo sem cobertura por mais de 30 dias, no intervalo entre a colheita de inverno e a implantação da cultura de verão, afirma o pesquisador. Descansar o solo, garante Calegari, é colocar planta e incorporar depois matéria orgânica, a fim de produzir um pouco mais de massa de cobertura e contribuir para o bom desenvolvimento do sistema de plantio direto.
No plantio diretoNo Brasil, de maneira geral, segundo Calegari, de uns cinco anos para cá o interesse pela gramínea cresceu muito. Mas as pesquisas são antigas. O Iapar tem estudos datados de 1984 sobre o cultivo do milheto. O atual interesse se deve ao resultado do milheto nos Cerrados, onde foi a âncora do plantio direto.
O milheto, de acordo com o pesquisador, é uma daquelas plantas que fazem o sequestro de carbono para a terra. Demora mais para se decompor, tem estabilidade de cobertura, maior efeito de sombreamento e armazenamento de água, além de potencial de reciclagem de nitrogênio, fósforo, potássio e outros nutrientes. Grande parte desses nutrientes fica disponível para a cultura seguinte.
Na implantação do milho após o milheto é importante fazer adubação ao redor de 30 quilos de nitrogênio no plantio, porque está se plantando uma gramínea após a outra. O milheto é rústico, necessita apenas de pequena quantidade de água para germinação. Hoje a variedade mais recomendada é a BN-2, proveniente de multivariedades africanas.
Aliado do produtorO agricultor colhe o trigo, planta milheto e por volta de 50 a 60 dias já tem boa massa vegetal para manejar e tempo para ainda instalar a cultura da soja, por exemplo. O milheto é um aliado do produtor, mantém terreno limpo e tem função alelopática; impede a germinação de invasoras, comenta Calegari.
Em países como Estados Unidos e Canadá, é cultivado a partir de materiais mais qualificados. No Brasil, segundo Calegari, interessam a rusticidade e o fato de poder de ser plantado no intervalo entre a colheita de inverno e cultura de verão.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, o agricultor colhe milho e soja no final de janeiro, até a primeira quinzena de fevereiro e entra com milheto. Maneja após 50 dias e entra com o trigo posterior. Com isso consegue aumento na produtividade do trigo e também efeito residual na soja.
No Paraná, nas regiões mais frias, pode-se seguir o exemplo dos agricultores gaúchos, já que o trigo é plantado no tarde. No Norte do Paraná, com o plantio do trigo mais no cedo, pode ser instalado entre setembro e novembro.
Cobertura e forrageiraDe acordo com Galegari, a gramínea também se destaca como forrageira para a pecuária. Pode ser usado como forragem aos animais (7 a 12% de proteína na matéria seca), proporcionando de 3 até 5 pastejos, sendo posteriormente deixado para rebrote e produção de massa verde que pode ser manejada com herbicida, para implantação dos cultivos sem revolvimento do solo no plantio direto.
O pesquisador reforça que o milheto apresenta alta resistência à seca e à salinidade do solo, desenvolvendo-se em regiões com precipitações a partir de 200 milímetros. Cresce bem em solos com mediana fertilidade, suportando condições de acidez, com crescimento rápido, vigoroso sistema radicular com elevado potencial de perfilhamento e alta capacidade de reciclagem de nutrientes.
Em condições normais, pode atingir 1,50 metro a 1,70 metro de altura aos 50 ou 60 dias da semeadura, com uma produção de 4 a 6 toneladas (t) de matéria seca por hectare (ha). Aos 100 ou 120 dias pode chegar a produzir em torno de 10 t/ha de matéria seca. Tem excelente sistema radicular, melhorador das características físicas do solo e capacidade de diminuir inóculos de doenças e pragas do solo. Excelente para fazer parte do sistema de rotação de culturas, afirma o pesquisador do Iapar.
SemeaduraÉ recomendável semear de 45 a 60 sementes por metro linear, linhas espaçadas de 17 a 25 centímetros, com um total de mais ou menos 250 sementes por metro quadrado, que dará em torno de 18 a 22 quilos por ha de sementes. Pode ainda ser consorciado com Crotálaria juncea (10 quilos por hectare de milheto mais 15 quilos por ha de crotalaria, misturando-se as sementes).
Pode ser semeado a lanço e posterior enterrio com grade leve (20 a 30 quilos de sementes) por ha . Em caso de semear com avião, recomendam-se de 30 a 35 quilos de sementes/ha. É possível semear após a colheita das espécies de verão (soja, milho, algodão, e outras) em fevereiro/março, ou após a colheita de inverno (agosto/setembro), antecedendo os cultivos comerciais (soja, milho e outros).


