Desde o começo do ano o volume de couro exportado pelo Brasil aumentou em 9,4% e o preço, em dólar, teve reajuste de 23%. Os números representam os negócios realizados nos meses de janeiro e fevereiro de 2001 em relação ao mesmo período do ano passado. O quadro é reflexo dos problemas do mal da vaca louca e aftosa em vários países do mundo que reduziram os abates de animais, passando a sacrificá-los, sem aproveitamento do couro.
De acordo com as informações do presidente do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), José Roberto Scarabel, os produtores mundiais de gado, principalmente os da Europa, deixarão de abater, pelo que se calcula, somente este ano, cerca de 20 milhões de cabeças, o que significará queda de 8% na oferta mundial de couro.
Bons preços em dólar O faturamento da exportação de couro obtido nos dois primeiros meses de 2001 com a venda de 3,09 milhões de peças somou US$ 138 milhões. Os números de março e abril ainda não estão finalizados, mas a expectativa, garante Scarabel, é que a alta deverá continuar, ‘‘pelo menos em dólar’’, nos próximos meses.
Não há como aumentar rapidamente o volume exportado, a não ser que a carne também seja mais valorizada para exportação, o que forçaria o aumento dos abates. Esse parece não ser o caso. Segundo analistas do setor de carnes, os consumidores europeus parecem querer distância de carne e o consumo não deverá, a médio prazo, ser alterado. Mas o setor de couros acredita na manutenção e espera até aumento no preço do couro exportação, pela escassez em outros países produtores, elevando o faturamento da atividade este ano.
Maior faturamento De acordo com projeção da CICB o faturamento em 2001 deverá ser de US$ 850 milhões. Em 2000 o Brasil exportou 14 milhões de peças de couro e obteve um faturamento de US$ 760 milhões. Segundo José Scarabel, presidente da CICB, o Brasil é hoje o segundo maior produtor de couro do mundo e o maior exportador. O maior produtor é os Estados Unidos, que abatem 40 milhões de cabeças de gado. Cada boi representa uma peça. No Brasil, embora se tenha o maior rebanho comercial do mundo (entre 165 a 166 milhões de cabeças) o desfrute é menor e o abate anual é de 33 milhões de cabeças.
Os maiores compradores do couro brasileiro são Itália, Espanha e Portugal. ‘‘A Europa compra cerca de 70% do couro brasileiro que é vendido no mercado externo.’’. Outros países da Ásia e até os Estados Unidos também compram o couro brasileiro.
No mercado interno O aumento da demanda internacional também valorizou o produto no mercado interno. Em alguns casos, segundo Scarabel, houve aumentos de 20% a 40%.
O couro verde, vendido pelos frigoríficos aos curtumes, que em janeiro valia R$ 1,45 o quilo, hoje é comercializado por R$ 2,40. Como as indústrias brasileiras estão pagando mais caro pelo couro o consumidor deverá sentir, em pouco tempo, o repasse nos valores dos produtos manufaturados a base de couro.
Vale pela qualidade No Brasil a concentração da produção está no Sul do País, principalmente no Rio Grande do Sul. Existem também indústrias em São Paulo e Minas Gerais. Em cada um dos Estados há valores diferenciados para comércio do couro, dependendo da qualidade das peças e do tipo a ser produzido. No País são produzidos os tipos salgado, wet-blue, crust (semi-acabado) e acabado.
Das 14 milhões de peças exportadas no ano passado, cerca de 10 milhões foram do tipo wet-blue, um couro curtido, de menor valor comercial. O aproveitamento comercial do couro depende de como o produto chega na indústria. Como é considerado um subproduto do boi e o pecuarista nada recebe, não existem maiores cuidados em apresentar peças sem marcas, furos e outros defeitos.
Segundo José Scarabel, na região do Brasil Central o couro vale um pouco mais, pelos cuidados existentes desde a fazenda até o abate dos animais. No Sul de Minas Gerais, por exemplo, segundo ele, o couro já é mais prejudicado pelo ataque dos endo e ectoparasitas (bernes, carrapatos, etc) e resulta em peças de menor valor. Já no Centro-Sul do Rio Grande do Sul, o couro proveniente de bovinos europeus, ainda de acordo com Scarabel, é bem visto pelo mercado para estofamentos. ‘‘Quem produz qualidade recebe mais por isso.’’

mockup