Audiência pública debate classificação do tabaco nas propriedades
Encontro será realizado na Assembleia Legislativa do Paraná, no dia 15 de abril; mudança no processo é reivindicação antiga do setor
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de abril de 2025
Encontro será realizado na Assembleia Legislativa do Paraná, no dia 15 de abril; mudança no processo é reivindicação antiga do setor
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

A Alep (Assembleia Legislativa do Paraná) realizará no dia 15 de abril, a partir das 9 horas, no Plenarinho, uma audiência pública que que vai debater a classificação do tabaco nas propriedades dos agricultores produtores no Paraná.
O encontro foi proposto pelos deputados Luiz Claudio Romanelli (PSD), Maria Victoria (PP), Alexandre Curi (PSD), Anibelli Neto (MDB) e Hussein Bakri (PSD). "É um tema de grande relevância para a agricultura paranaense", disse Romanelli durante seu pronunciamento na sessão plenária desta terça-feira. "Vamos discutir o projeto de lei que determina que as empresas que comercializam e/ou industrializam tabaco no Paraná realizem a classificação da folha diretamente nas propriedades dos agricultores, no ato da aquisição”, explicou o parlamentar.
"Sabemos que os agricultores paranaenses enfrentam desafios relacionados à transparência no processo de classificação das folhas de tabaco. A descentralização dessa etapa diretamente na propriedade do produtor representa um avanço, trazendo mais equidade e atendendo a uma demanda histórica dos fumicultores", apontou o deputado.
Hoje o produtor de tabaco, segundo o deputado, investe e assume os riscos da atividade, encontra-se em desvantagem, subordinado às decisões das empresas compradoras. "Esse projeto busca corrigir essa distorção, garantindo que o agricultor possa acompanhar e contestar a classificação do seu produto, fortalecendo sua posição na cadeia produtiva", explicou Romanelli.
Atualmente, a comercialização do tabaco segue um sistema de classificação estabelecido pelo Ministério da Agricultura, por meio de instrução normativa. No entanto, a centralização da classificação em poucas unidades favorece as empresas compradoras e prejudica os produtores, que ficam distantes do processo e enfrentam dificuldades para acompanhar a análise da sua produção.
São João do Triunfo
Localizado no sudeste paranaense, São João do Triunfo foi o 2º maior produtor de tabaco do Brasil na safra 2023/24, segundo levantamento realizado pela Afubra (Associação dos Fumicultores do Brasil).
O município produziu 17,5 mil toneladas de tabaco provenientes de 2.222 produtores, ficando atrás apenas de Canguçu (RS), com 18,1 toneladas oriundas de 4.964 produtores.
Segundo o Deral (Departamento de Economia Rural), órgão ligado à Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento), o VBP (Valor Bruto da Produção) da cultura em São João do Triunfo alcançou R$ 425,5 milhões em 2023, participação de quase 15% na produção de fumo estadual.

Paulo Cesar Stocki, secretário municipal de Agricultura, Indústria e Comércio de São João do Triunfo, destaca que o fumo é o principal responsável pela receita no município. “Em 2023, cerca de 61% da receita vinda do setor agropecuário veio do cultivo do fumo”, pontua. Hoje, cerca de 85% da produção é direcionada à exportação.
O secretário acrescenta que a atividade é responsável pela geração de empregos para mais da metade da população, direta ou indiretamente. “Seja no cultivo ou no comércio em geral, movimentado pelo dinheiro vindo da lavoura.”
Algumas características explicam o protagonismo de São João do Triunfo na produção de tabaco. “O clima e o solo arenoso, que facilita a drenagem, são pontos positivos à cultura. Há também um relevo tecnicamente acidentado, que dificulta a implantação de culturas que dependem de mecanização. Isso favoreceu o cultivo do fumo para proporcionar uma renda maior com trabalho manual e em pequenas propriedades”, explica.
Sobre a campanha antitabagismo, o secretário pondera que, apesar de o consumo de tabaco ter caído entre a população, a cultura segue predominante no município. “E nos últimos anos vem aumentando”, pontua.
A Afubra aponta que, entre os 15 estados maiores produtores de tabaco no Brasil, seis são paranaenses – além de São Joao do Triunfo, figuram na lista Rio Azul (5ª colocação); Ipiranga (8ª colocação); Prudentópolis (10ª colocação); Irati (14ª colocação) e Palmeira (15ª colocação em nível nacional).
Aumento da produção
Com propriedade em São João do Triunfo, o produtor Juliano Zakrzewski Maier espera colher quase 20% mais folhas de tabaco neste ano, em comparação ao ano passado – 2023 foi um pouco prejudicado pelo clima.

A expectativa é colher 27 toneladas provenientes de nove hectares em 2024, ante 23 toneladas colhidas no ano anterior. A propriedade conta, ao todo, com 130 mil pés cultivados.
Toda a produção é vendida para uma das filiais da BAT (antiga Souza Cruz) localizada em Rio Negro, sudeste paranaense. “Entre 80% e 90% de todo o tabaco produzido vai para exportação.”
Dedicando-se à cultura do tabaco há 22 anos, o produtor relembra que começou na atividade como um meio de sobrevivência e de melhoria de vida. “Deu certo e até hoje continuamos na produção do tabaco, gerando renda e dignidade para as pessoas”, pontua.
Para obter o máximo desempenho na produção, Juliano adota algumas práticas no campo, como a aplicação dos insumos adequados no tempo certo. “Também é muito importante fazer a correção do solo e a adubação verde para que o terreno fique melhor para a produção”, lista.
Entre os desafios da atividade, ele cita a escassez de mão de obra para fazer o plantio. “E outra dificuldade é o clima, pois o tabaco é uma indústria a céu aberto”, conclui.
Do campo ao mercado
Depois de plantado, quando o fumo chega em seu porte desejado e fica ‘maduro’, ele é colhido em folhas. Posteriormente, é desidratado em uma estufa de ar quente para poder ser prensado em fardos e destinado à indústria.
“Após chegar na empresa ele é classificado quanto à gramatura, tamanho, coloração etc., e é nesta etapa que acaba a participação do produtor rural. Posterior a esta etapa a empresa decide qual será o destino do fumo, principalmente para a produção de cigarros”, explica o Paulo Cesar Stocki.
A produção de tabaco em São João do Triunfo é remetida para quatro filiais de indústrias, localizadas em Canoinhas (SC), Rio Negro (PR), Rio Azul (PR) e São Mateus do Sul (PR). Essas filiais captam dos produtores e remetem a Santa Cruz do Sul (RS), para o cigarro ser fabricado e exportado. Há casos de o cigarro já sair pronto ou somente o blend, matéria-prima já preparada para a indústria produzir o cigarro no exterior.
Ranking
O Paraná é o terceiro estado maior produtor de tabaco, ficando atrás de Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Na safra 2023/24, 24.580 famílias paranaenses produziram 137,7 mil toneladas de tabaco em 73,9 mil hectares de terras, totalizando um VBP (Valor Bruto de Produção) superior a R$ 3 bilhões.
Em todo o país, a produção de tabaco registrou 508 mil toneladas, cultivadas em 509 municípios da região sul do Brasil. O volume da safra 2023/2024 foi 22,7% inferior ao do período 2022/2023, que contabilizou 606 mil toneladas.
Mas a soma da receita bruta dos produtores foi 7,3% superior na safra 2023/24 em relação à anterior – os 133,2 mil produtores da safra mais recente receberam conjuntamente mais de R$ 11,78 bilhões, enquanto os 125 mil produtores da safra anterior receberam cerca de R$ 11 bilhões. (Com Ascom/Alep)


