Atraso da soja ameaça safrinha
O atraso no plantio de soja, por causa da falta de chuva na época recomendada, pode comprometer a safrinha de milho na região de Maringá, além de colocar em risco a produtividade das lavouras. No ano passado foram plantados 90 mil hectares de milho-safrinha, a maior área já registrada na região. A produção, entre 4 e 4,5 mil quilos por hectare, também animou o agricultor. Mas não existe expectativa de aumento da área com milho para este ano, por causa das incertezas geradas pelo atraso da soja, alerta o agrônomo José Roberto Gomes, gerente do Departamento Técnico da Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas (Cocamar) de Maringá.
O crédito dos produtores para o milho-safrinha fez com que a cultura apresentasse um crescimento animador nos últimos anos. Segundo Gomes, apesar do risco, o milho fora de época tornou-se uma importante alternativa ao trigo. O produtor começou mais, arriscando para ver no que dava, e as condições favoráveis animaram até as empresas do setor, revela ele. Boa parte das indústrias de sementes passaram a investir no desenvolvimento de variedades precoces e mais produtivas, ideais para a safrinha.
Milho mais atraenteO agricultor não ficou atrás. Aumentou a área de plantio, começou a plantar a soja o quanto antes e, o mais importante, melhorar a fertilidade do solo para a safrinha. Segundo Gomes há alguns anos os produtores queriam mais era aproveitar a terra em um período em que só existia o trigo para o inverno. Quem investia na soja colocava o milho até com sementes próprias, para tirar algum lucro, mas o negócio prosperou e hoje o milho-safrinha tem muito peso na produção de vários municípios da região, conta. Pelo menos nas últimas três ou quatro safras de inverno o clima também ajudou, e a produção ficou dentro de padrões animadores.
Ele diz ainda que a diferença na comercialização do trigo e da soja acabou pesando na insistência dos produtores em fazer a safrinha dar certo. Enquanto o preço do trigo depende de variações externas e a compra do produto está quase nas mãos do governo, que nem sempre tem recursos disponíveis para aquisição, no milho a situação é diferente. Além do produto da safrinha entrar no mercado em um período de oferta reduzida, existem outras facilidades. Com preços melhores e compradores locais, o agricultor acaba optando pelo milho.
PreocupaçãoMas, para este ano, os técnicos ainda não têm certeza do desempenho da cultura fora de época. Além do atraso no plantio da soja, que vai ampliar ainda mais a época de colheita, o milho-safrinha depende das condições de clima na hora de plantar. Gomes explica que durante muitos anos o clima ajudou, com chuvas na hora certa, que não atrapalharam a colheita da soja e ajudaram no plantio do milho-safrinha. Precisamos de mais essa condição ideal de clima, para garantir pelo menos boa parte da área de milho no inverno, explica.
A preocupação maior do agricultor, no entanto, está na fase de desenvolvimento da cultura a partir da entrada do inverno. Com a lavoura de milho sem os pés e as espigas formadas, qualquer geada, mesmo fraca, causará perdas elevadas, muitas vezes totais. Gomes explica que a época recomendada para o plantio do milho-safrinha é fevereiro, mas existe um período aceitável até o dia 22 de março. Se o plantio for feito até meados de março, o risco será de pegar um frio muito intenso ou até uma geada mais cedo, explica.
Com as condições normais de clima na hora do plantio, Gomes acredita que a área da safrinha passada de milho se repetirá com certeza. Ele afirma que, mesmo com as condições adversas que a cultura corre o risco de pegar na fase de desenvolvimento, o produtor está com um pé atrás com o trigo. Além de todos os fatores externos, existe ainda um histórico de frustrações no campo. Nos últimos anos as áreas de trigo, mesmo as mais tradicionais, sofreram muito com as doenças e o excesso de chuva na colheita, com muita quebra na qualidade e no preço, lembra.
Para a Cocamar, o milho-safrinha é de extrema importância, porque garante a ocupação de boa parte das áreas de soja, que nem sempre recebem culturas no inverno, e pela redução do plantio no período normal. Segundo Gomes, a cooperativa recebeu cerca de 138 mil toneladas de milho no ano passado, sendo 130 mil de milho-safrinha. O agricultor que não quer arriscar com o milho e muito menos com o trigo, pode optar pela canola, cultura introduzida no Brasil pela Cocamar, que também fabrica o óleo de canola.
CanolaSegundo Gomes a canola deve ocupar 9 mil hectares na região de Maringá na próxima safra de inverno. O plantio não será maior por causa da limitação no fornecimento da semente, explica. Mas a área está dentro da expectativa da Cocamar. Ele diz que, quando a canola foi cultivada pela primeira vez, trouxe grandes dificuldades, e apesar dos técnicos e produtores não estarem preparados, houve um aumento significativo de área plantada. O que acabou complicando ainda mais, porque a cultura é diferente de tudo a que estamos acostumados, afirma.
A canola tem sementes pequenas, que exigem um comportamento diferente do produtor na hora de plantar e colher. A cultura está indo bem, dentro de um ritmo normal de avanço. Tanto que temos cooperados que plantam desde o início, e já estão com a área reservada, revela Gomes. A vantagem da canola este ano, para quem não quer arriscar com o milho-safrinha, é que o período recomendado de plantio vai de março a abril, sem riscos de perdas por causa de geadas.Marcos NegriniAtrasoA soja está com a fase de desenvolvimento atrasada, por causa do plantio tardioMarcos Zanatta





