Associação Brasileira de Café Arábica
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de junho de 2003
Ricardo G. Strenger (*) 
''Penso, logo existo''. Esta famosa frase exprime a essência do ser humano.
Assim sendo o homem vem evoluindo através do pensamento. O café é produzido no Brasil desde 1727, portanto há 276 anos. Neste período a humanidade assistiu a disseminação das armas, o lançamento das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, a destruição dos rios, das florestas, a pobreza, a fome, a desnutrição das crianças dos países pobres, o que levou uma parte da sociedade a se organizar para lutar a favor da natureza e do socialmente justo. Mas, ao que parece na cafeicultura permanecemos imobilizados, chegando ao século XXI com colocações retrógradas. Hoje comercializamos e consumimos café praticamente da mesma maneira que há quase 3 séculos.
Na última reunião da OIC (Organização Internacional do Café), em Londres, chegou-se à conclusão de que a solução para os problemas do café seria a melhoria da qualidade, aumento de consumo e diversificação das lavouras.
Diversificar as lavouras é recomendação ao menos estranha para uma entidade que representa o agronegócio café. Quem ou qual país vai arrancar primeiro o seu café?
Hoje a qualidade do café Arábica é incontestavelmente excepcional. Acontece que o café servido atualmente contém grandes quantidades de café Robusta / Conillon, que não tem aroma, sabor e tem paladar adstringente e ainda possui 2 a 3 vezes mais cafeína que o café Arábica.
Como aumentar o consumo do que é ruim (pela adição exagerada do Robusta / Conillon) e com alto índice de cafeína que limita o consumo?
Sabemos que o café Robusta proveniente dos portos da Ásia chega ao seu destino com alto teor de umidade e consequentemente baixa qualidade.
Devido à diferença de qualidade é fundamental que o consumidor saiba o que está bebendo. Para isso em 28/02/2001 a APAC (Associação Paranaense de Cafeicultores) lançou a idéia da rotulação do café, que se transformou em lei no Estado do Paraná no dia 07 de março de 2002. Desde então vimos com alegria que a necessidade de se rotular o café tornou-se um consenso nacional nos meios cafeeiros, com a lei sendo aprovada posteriormente no Estado de Minas Gerais. A indústria cafeeira se mostrou contra a mesma e entrou no Supremo Tribunal Federal com ação de inconstitucionalidade, tentando barrar sua regulamentação e ''sub judice'' a mesma se encontra.
A evolução da crise cafeeira mundial tem nítida correlação com a generalização de que tudo é café, empurrando ao consumidor um produto nem sempre de boa qualidade.
O atrelamento do café Arábica e café Robusta/Conillon faz com que os preços desabem, pois a indústria sempre opta pelo café disponível e mais barato, não se importando com a espécie de café (Arábica ou Robusta/Conillon).
Não queremos absolutamente discriminar qualquer café o que queremos é defender o nosso produto. No Paraná produzimos café Arábica, como em Minas Gerais, São Paulo, parte do Espírito Santo e parte da Bahia, e outros produtores menores.
Chegou o momento de nos posicionarmos com clareza, e para isso estamos propondo a criação da Associação Brasileira de Café Arábica (ABCA).
Esta associação é da mais absoluta necessidade aos produtores de café Arábica, pois será o instrumento de defesa do cafeicultor de Arábica, que é o mais prejudicado nos dias de hoje, devido aos altos custos de produção de nosso produto e os baixos preços praticados no mercado.
Difícil é o caminho da verdade, que com mentes abertas e a evolução do pensamento, atingiremos nossos objetivos de modernizar a comercialização e o consumo de café no mundo, respeitando o produtor e o consumidor.
União é força e com união alcançaremos nossos objetivos formando a Associação Brasileira de Café Arábica - ABCA.
(*) Ricardo Gonçalves Strenger é presidente da Associação Paranaense de Cafeicultores


