Assistência técnica ainda é desafio
Mesmo com projetos em andamento, assentamentos nem sempre podem contar com apoio do poder público
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de setembro de 2019
Mesmo com projetos em andamento, assentamentos nem sempre podem contar com apoio do poder público
Victor Lopes - Grupo Folha 

O Fomento Mulher em Londrina conta atualmente com a atuação de dois agrônomos, duas veterinárias, um técnico agropecuário e um técnico social para tocar os projetos com mais de uma centena de famílias nos assentamentos Eli Vive I e II. Além disso, técnicos de cidades próximas a Londrina também ajudaram na elaboração dos projetos no ano passado.
Para quem vive nos assentamentos, o desafio é grande para conseguir assistência técnica. Quando projetos como esse acontecem, é uma forma de receber esse conhecimento, nem que seja por prazo determinado. Diferentemente do agronegócio que produtores estão alicerçados em empresas privadas e grandes cooperativas, os produtores de assentamento precisam desse respaldo do poder público, o que no caso de Londrina é bem complexo, já que o Instituto Emater tem uma equipe pequena na cidade para atender uma área rural bem extensa. Só os dois assentamentos, por exemplo, são pouco mais de 3 mil alqueires.
Sandra Aparecida Costa Ferrer já está há dez anos no Eli Vive, sendo cinco anos de acampamento e mais cinco agora como assentamento. Ela também conseguiu recursos para sua área de 3,5 alqueires através do Fomento Mulher, investindo em duas mil mudas de café, totalizando agora seis mil, e também na construção de uma mini granja de porcos e a aquisição de um casal de animais.
“A gente sabe que não tem assistência técnica de uma forma geral. Quando acabar o projeto do Fomento Mulher, vai ficar essa lacuna. Geralmente, procuramos informações, trocamos experiências com quem já está produzindo há mais tempo e também pedimos dicas em off para os extensionistas. A gente sabe que dessa forma não é o suficiente para crescer, mas a Emater nos ajuda como pode.”

Mesmo com a extensão rural não dando o suporte que seria necessário, é impressionante como a propriedade de Sandra está com um ótimo nível de profissionalização. Isso porque anteriormente ela estava inserida num projeto do café. No ano passado, fez a primeira colheita do produto agroecológico e está na expectativa de uma nova safra. “Foi uma colheita muito boa, recuperamos três anos de investimento, gerando uma renda. Estou dentro da rede Ecovida e a ideia é que nosso café se torne orgânico. Estamos em fase de transição e não passando veneno nenhum. Quero certificar nossa área e fazer rendas melhores, porque mesmo sendo agroecológico, recebi da cooperativa como café convencional, com uma bebida excelente.”
Sandra, que é umas lideranças do assentamento, relata como esses recursos de R$ 920 mil disponibilizados para as famílias fomenta a agricultura familiar, gerando “um salto de qualidade maravilhoso” na produção. “Com uma crise dessa, em que não temos dinheiro para nada, chegar esses R$ 5 mil para nos ajudar é muito importante. Elas estão faceiras com esse recurso, contentes e esperando que a renda cresça. É um galinheiro, uma vaca de leite... o quanto isso vai acrescentar para as mulheres aqui!?”
Na propriedade hoje moram ainda o marido Renê, o filho Lucas e a filha Jaqueline com o esposo Marcos e a neta Camile. Todos envolvidos na propriedade. “Todo projeto destinado para a área do assentamento a gente aproveita ao máximo. Infelizmente são projetos pequenos e muitas vezes não atendem todas as famílias.”
A neta mesmo - que estuda na escola do assentamento - já entendeu o valor dos porcos na propriedade e sabe que isso vai trazer benefícios para a família. “Minha neta já olha para o porquinho e diz que é dela e que vai comprar uma roupinha pra ela, já sabe que vai garantir o básico que precisa. Vislumbramos essa qualidade de vida para nosso futuro.”


