Paulo Pegoraro
De Cascavel
Agricultores que tiveram terras alagadas pelo reservatório da hidrelétrica de Salto Caxias, da Copel, no Rio Iguaçu, que há 2 anos foram reassentados em Cascavel, estão começando a colher os resultados de um programa experimental de produção de soja orgânica. O programa é estimulado pela Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Iguaçu (Crabi), entidade constituída antes da época da construção da usina – entre 1995 e 1997 –, para representar as famílias que seriam desalojadas das margens do rio, em sua luta por justa indenização.
A Crabi estimula práticas alternativas na produção agropecuária dos reassentamentos, localizados em vários municípios do Oeste e Sudoeste do Estado. Uma delas, a da soja orgânica, que tem mercado assegurado, principalmente em países onde são mais valorizados alimentos produzidos sem o uso de químicos. A soja já está sendo colhida, e para mostrar os resultados obtidos, foi realizado durante a semana um dia-de-campo, no Reassentamento Nossa Senhora dos Navegantes – a antiga Fazenda Barater, uma das áreas adquiridas pela Copel para instalar as famílias.
RentabilidadeA produção orgânica foi desenvolvida experimentalmente nesta safra por 28 reassentados, cada qual dedicando à cultura 1 alqueire, em média. Eles tiveram orientação e comprometeram a venda do que for colhido com uma empresa especializada em orgânicos, a ‘‘Terra Preservada’’, de Capanema (Sudoeste do Estado). A remuneração é muito atrativa, US$12,50 (aproximadamente R$22,50) a saca, para repasse do produto a importadores do Japão. Durante a semana, a soja produzida de forma convencional (com agroquímicos) estava cotada em Cascavel a R$17,00 a saca.
Um dos que plantaram a soja orgânica é o próprio presidente da Crabi, José Uliano Camilo. Ele dedicou 1 alqueire à cultura, e espera fechar a colheita com 100 sacas por alqueire. Na área (4 alqueires) em que plantou a soja convencional, deve obter 120 sacas de produtividade. O custo de produção da primeira, porém, é pelo menos 20% inferior, e a remuneração muito superior. Por isso os reassentados devem ampliar consideravelmente a área a ser destinada na próxima safra à soja orgânica, que pode ocupar mais de 200 alqueires, e nos anos seguintes ir muito além.
Controle de pragasOs produtores fizeram um aplicação de baculovirus (controle biológico da lagarta-da-soja) na plantação e conseguiram controlar adequadamente lagartas e percevejos. Na plantação convencional foram uma aplicação de herbicida e uma de inseticida para o combate à lagarta. Além disso, a resistência da orgânica às alterações climáticas foi superior. No solo, ainda há resíduos de químicos usados na safra anterior, mas na próxima safra a soja será ‘‘absolutamente orgânica’’, por isso a saca deverá alcançar preço de até US$20,00, segundo José Uliano Camilo.
Os reassentados afirmam que, além da receita maior, consideram muito importante os ganhos ambientais, com a eliminação dos grandes volumes de agrotóxicos utilizados nas lavouras convencionais. Além disto, há ocupação da mão-de-obra familiar, nos tratos culturais, e o uso de equipamentos de tração animal. Para José Uliano Camilo, os resultados que estão sendo obtidos nos reassentamentos provam que ‘‘ao contrário do que alguns tentam sustentar, não estamos regredindo e resistindo à tal modernidade, muito ao contrário, moderno é produzir em quantidade, com qualidade e preservação do meio ambiente’’.
PolêmicaA produção de soja orgânica, em áreas vizinhas de lavouras ‘‘químicas’’, ou a soja transgênica (geneticamente modificada), têm provocado discussões em todo o mundo. Defendendo a agricultura ‘‘natural’’, estão principalmente os ecologistas e, do outro lado, estão organizações que procuram introduzir a transgênica em vários países. O presidente para a América do Sul da multinacional americana Du Pont, Henrique Ubrig, que esteve recentemente em Cascavel, defende tanto a orgânica quanto a transgênica, ‘‘sem barreiras’’.
A primeira, ‘‘porque, ao final, o custo de produção é mais barato’’ e a outra, ‘‘porque consumidores de muitos países a exigem’’. Para Ubrig, produtos geneticamente modificados não devem ser ‘‘impostos’’ aos consumidores, mas sim oferecidos como uma alternativa, ‘‘e que a sociedade seja bem informada do que lhe está sendo oferecido, para que possa fazer opção’’. Para o dirigente da multinacional, o ‘‘fundamental’’ é não criar barreiras para avanços da ciência, entre os quais, no setor agrícola, ele destaca como ‘‘um dos mais importantes’’ os produtos transgênicos.

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