Assentadas e produtivas
As mulheres têm sido protagonistas em assentamentos na região de Londrina, graças a um projeto parceiro entre o Incra e o Instituto Emater
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de setembro de 2019
As mulheres têm sido protagonistas em assentamentos na região de Londrina, graças a um projeto parceiro entre o Incra e o Instituto Emater
Victor Lopes - Grupo Folha
No Brasil de pensamentos extremados, o conceito de reforma agrária ainda parece bem distante do agronegócio. O olhar sob um assentamento - mesmo que ele esteja regularizado - muitas vezes é de desconforto, ainda que a caminhada dos novos produtores rurais seja de investimentos nos lotes, busca por produtividade, profissionalismo, capacitação e comercialização do que se tira da terra. A realidade é que a reforma agrária e agronegócio já caminham juntos em muitas áreas desapropriadas pelo Brasil, gerando renda e movimentação da economia local.
No distrito de Lerroville, em Londrina, os assentamentos Eli Vive I e Eli Vive II são a prova clara desse movimento. Mais do que isso: as mulheres têm sido protagonistas naquelas áreas - com 501 famílias - graças a um projeto parceiro entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) com o Instituto Emater de Londrina.
O Fomento Mulher – voltado à implantação de projetos produtivos sob a responsabilidade das titulares dos lotes da reforma agrária - está sendo implantado desde o ano passado em ambos os assentamentos e gerando estratégias importantes para aquelas famílias, estimulando o trabalho e renda das mulheres no campo, promovendo a segurança alimentar e nutricional e, mais do que isso, inserindo aquelas pessoas num dos segmentos econômicos mais importantes do País.
No ano passado, com os esforços da Emater, os projetos foram elaborados para envio ao Incra. No total, foram 147 projetos aprovados no Eli Vive I e 37 no Eli Vive II. No II, os recursos chegaram em dezembro de 2018 e as ações já estão em andamento, com visitas da assistência técnica pública. No Eli I, os recursos começaram a chegar no mês passado.
De forma prática, as mulheres recebem via Banco do Brasil o valor de R$ 5 mil pelo projeto, pago em parcela única. Portanto, os 184 projetos aprovados até aqui nos dois assentamentos estão movimentando um valor para o agro de Londrina próximo a R$ 1 milhão. Após um ano, eles devem pagar apenas R$ 1.005 (abate de 80%). A Folha Rural foi até lá conferir como andam os trabalhos e se o dinheiro está sendo bem aplicado.
Quem nos acompanha naquela área impressionante - que no passado era de duas super fazendas - é a assistente social e técnica de extensão rural da Emater, Genny Seisert Santos. Ela explica que a maioria dos projetos aprovados foram de bovinocultura de leite, e na sequência, olericultura. “Como já há uma venda forte de leite devido à Copran (Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária União Camponesa, situada no Assentamento Dorcelina Folador, localizado em Arapongas), muitos optaram pela produção leiteira”, explica. As hortaliças também são fortes na área, com muitas vendendo diretamente ao consumidor final e trabalhando inclusive com programas de agroecologia.
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Santos salienta ainda que muitos podem pensar que o valor de R$ 5 mil parece pouco quando se pensa nos custos de uma propriedade rural, mas o fato é que o impacto é muito grande no dia a dia das famílias graças ao recurso. “O dinheiro promove uma geração de renda para eles, porque muitos não têm dinheiro para iniciar qualquer projeto. A compra de animais, um curral e uma pocilga bem feitas, melhorias de infraestrutura, sem contar a aplicação do dinheiro na economia local. Nós percebemos que eles começam a produzir mais e o lote se torna mais rentável.”
Outro ponto positivo é que esse tipo de recurso gera uma regularização dos lotes. A assistente social explica que mais 78 nomes foram enviados ao Incra e, caso haja mais recurso disponível, podem liberar mais um montante. “Chegaríamos a 262 projetos, ou seja, mais da metade dos 501 lotes beneficiados.”
Por fim, ela considera que os trabalhos no assentamento estão indo no caminho certo. “Eu tenho a convicção que é algo que, embasado nas políticas públicas, é viável, dando dignidade, qualidade de vida e renda para a família do agricultor. Ainda não dá para colocar todos na mesma mesa por igual, mas o caminhar de forma geral é muito bom.”