Arquivo FapeagroFlávio Lazzari acredita que muitos órgãos públicos, que não redefiniram seus papéis, serão desativadosConsumidor cada vez mais exigente, produtos de qualidade superior, tendência de permanecerem no mercado os médios e grandes produtores. Estas são algumas das mudanças que em breve deverão acontecer no cenário agrícola nacional. A opinião é do engenheiro agrônomo Flávio Antônio Lazzari, consultor técnico na área de sementes, grãos, rações e produtos alimentícios.
O especialista, que também é orientador do curso de pós-graduação em Entomologia da Universidade Federal do Paraná, afirma que as transformações no setor são uma forma de se adaptar aos novos fatos econômicos, tecnológicos e políticos ocorridos tanto no cenário nacional como internacional, que geraram o fenômeno conhecido atualmente por globalização. ‘‘Estas mudanças estão forçando o produtor rural e o serviço público a se atualizarem’’, diz Lazzari.
Segundo ele, existem sete forças que, nos próximos anos, deverão promover transformações drásticas: internacionalização da agricultura; reestruturação das empresas agrícolas e das propriedades; diversidade do produtor rural; forte ênfase no consumidor; novas tecnologias e biotecnologia; capitalização da agricultura e necessidade de planejamento estratégico.
Internacionalização‘‘Os insumos (adubos, fungicidas, inseticidas e sementes) estão cada vez mais concentrados nas mãos de poucas empresas internacionais, ao mesmo tempo em que os preços dos principais produtos agrícolas também são definidos pelas tendências do mercado lá fora’’. Para Flávio Lazzari, há uma forte tendência de as novas tecnologias deixarem de ser produzidas por órgãos governamentais e passarem para as mãos de empresas privadas, empenhadas em atender demandas regionais, através de projetos de curto e médio prazo, capazes de fornecer respostas rápidas.
O professor acredita que muitos dos órgãos públicos serão desativados, pois diante da agilidade da nova realidade, ‘‘não há mais lugar para estruturas extremamente burocráticas e instituições que não redefiniram seus papéis nos últimos anos’’. ‘‘Os setores públicos estão sob forte pressão’’, afirma, lembrando que as cooperativas, dentro de pouco tempo, também não serão as mesmas. ‘‘Elas terão que se tornar sociedades anônimas ou passarem a ser geridas através de ações ou cotas’’, prevê Lazzari.
Dentro das propriedades, a tendência à diversificação - com alto grau de especialização e eficiência na combinação de suinocultura, avicultura, pecuária de leite e de corte com a produção de grãos - é inevitável. Da mesma forma, deve se tornar cada vez mais comum a opção por parte do produtor pelo armazenamento, processamento e transformação dos grãos nos próprios limites do sítio ou fazenda. ‘‘Trata-se de uma forma de reduzir custos e agregar valor ao produto agrícola’’, lembra o consultor.
Novo perfilLazzari afirma que o agricultor deste final de século deve ser um profissional melhor preparado em termos técnicos e culturais, mais urbano. Como resultado, haverá um aumento no tamanho das propriedades, principalmente aquelas destinadas à produção de grãos. ‘‘Os pequenos não têm espaço, nem terra, nem tecnologia para expandir. Por uma série de limitações, não são capazes de responder às demandas com a rapidez que o mercado exige. A produção de grãos, no futuro, vai se concentrar nas mãos dos grandes produtores’’.
E a extensão rural, como fica diante de tantas mudanças? ‘‘O modelo atual de extensão não atende mais a agricultura competitiva dos dias de hoje. Ela foi concebida com vistas à produção, simplesmente, e não visando o produto final, no sentido de conservar o que se produz’’, responde o especialista. Para ele, a grande preocupação do sistema produtivo hoje em dia devem ser as necessidades do consumidor, que passou a orientar os processos de produção e ditar tendências, como a de se gastar cada vez menos tempo no preparo dos alimentos. ‘‘A indústria deve estar atenta às constantes mudanças de hábitos da população’’, recomenda Flávio Lazzari.
A preocupação com a qualidade dos alimentos faz com que o mercado mundial exija cada vez mais produtos livres de micotoxinas, resíduos de defensivos, hormônios e insetos, impurezas resultantes, muitas vezes, do mau armazenamento dos grãos. ‘‘O Brasil é um país que possui grandes contrastes em termos de estrutura para armazenamento’’, lembra Lazzari.
Capital humanoAs novas tecnologias e o uso da biotecnologia, segundo o professor, requerem menos capital e mais gente especializada, ou seja, a grande ênfase deve ser dada ao material humano, e não tanto ao capital físico. ‘‘A informação é vital para a manutenção no mercado. Ela deve ser buscada, comprada e incorporada. Hoje é a informação que tem o controle, e não o capital.’’
Para o consultor, a capitalização da agricultura deverá acontecer daqui para frente de formas inovadoras: bancos públicos e privados deverão reduzir gradativamente o crédito aos agricultores e sistemas alternativos para levantar os recursos que o setor necessita deverão surgir, como Cédula do Produtor Rural (CPR), mercado futuro e entrega futura. Finalmente, Lazzari lembra que será de extrema importância o planejamento estratégico da atividade. E resume: ‘‘Pesquisa e educação serão as bases para resolver os problemas, da produção à mesa do consumidor’’.

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