As rodas da carroça
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de agosto de 2019
null 
Desde pequeno eu trabalhei para ajudar nas despesas de casa. Até os dez anos ainda não tinha usado sapatos, mas já havia sido vendedor de pastéis e sorvetes. Dos doze aos catorze anos fui ajudante de carroceiro, com quinze era aprendiz de contabilidade e a partir dali não parei de trabalhar. Na minha carteira de trabalho constam registros de auxiliar de escritório, encarregado, chefe de setor, técnico em recursos humanos e professor universitário. Mas guardo belas lembranças daquele tempo de menino carroceiro.
Como contei aqui anteriormente, meu avô Francesco tinha uma indústria de formas para calcados na cidade de Getulio Vargas (RS), que consistia na confecção de modelos em madeira que serviam para produção de sapatos. Ao recortar a madeira sobravam retalhos de lenha, que iam sendo empilhados ao lado da fábrica. Uma semana de boa produção resultava em grande quantidade de retalhos que eram vendidos para utilização nos fogões à lenha, tão comuns naquele tempo. As pessoas iam até a fábrica para encomendar a carga de lenha, sendo meu irmão Chico o responsável por anotar os pedidos e programar as entregas, que eram feitas de carroça por ruas de terra.
A carroça, puxada por uma mula de nome Estrela era guiada pelo Seu Jacó, mais conhecido como Jacózinho, pelo fato de ter o mesmo nome do seu pai. As entregas de lenha eram feitas em várias partes da cidade, às vezes perto da fábrica e em outras vezes fora da localidade. Eu gostava das viagens mais distantes, porque na volta seu Jacózinho me deixava conduzir a carroça vazia. Eu era curioso e no preparo da carroça, antes das viagens, ficava importunando o avô, meu pai e o carroceiro, com a seguinte pergunta: "- Por que as rodas da frente da carroça são menores que as rodas de trás?".
Não respondiam. Desconfio que não sabiam explicar, pois diziam que as rodas sempre tinham sido daquele jeito e falavam para eu me preocupar com coisas mais importantes, como encher a carroça de lenha e tratar da mula. Não tenho vergonha de contar que algumas vezes levava alguns tabefes, quando insistia em querer saber o motivo da diferença no tamanho das rodas. Mas eu persistia na indagação e continuava no serviço de entrega de lenha, imaginando que os meus amigos me olhavam com inveja e as meninas com admiração, quando me viam guiando a carroça. Do dinheiro que recebia como ajudante de carroceiro separava uma parte para divertimento: chicletes, pipoca e cinema e outra parte para investimento em bolinhas de gude, álbuns de figurinhas e lápis de cor.
- Mas, e a diferença de tamanho das rodas?
Cansado de não ter respostas, parei de perguntar e fiquei 50 anos sem ter a explicação, até que no mês passado o assunto veio à tona e conversando sobre isso na chácara do amigo Klaus Alemão, onde uma antiga carroça serve de decoração debaixo de uma paineira, foi que ele, engenheiro mecânico, esclareceu:
- As rodas dianteiras são menores para que a carroça tenha melhor manobrabilidade.
Simples assim.
"Eu era curioso e ficava importunando com a seguinte pergunta: '- Por que as rodas da frente da carroça são menores que as rodas de trás?'"
Gerson Antonio Melatti, leitor da FOLHA.


