As necessidades do agronegócio em tempos de pandemia

Setores produtivos ligados ao campo analisam as ações do governo e falam dos impactos econômicos causados pela crise do coronavírus

Pedro Moraes - Grupo Folha
Pedro Moraes - Grupo Folha

Dados do IBGE mostram que o abate de bovinos no Paraná chegou à segunda melhor marca da série histórica, com 1,452 milhão de cabeças.
Dados do IBGE mostram que o abate de bovinos no Paraná chegou à segunda melhor marca da série histórica, com 1,452 milhão de cabeças. | Marcos Zanutto/02/08/2016
 

 

Engrenagem fundamental da economia brasileira, o agronegócio também está sendo impactado pela pandemia da Covid-19. Na tentativa de minimizar os danos ao setor, o governo federal anunciou medidas que prometem auxiliar os produtores rurais. Entre as principais ações estão a prorrogação das parcelas de financiamentos, criação de recursos para estocagem e comercialização, além de apoio aos produtores afetados pela seca. Apesar de o clima ter sido favorável no Paraná e tão ter castigado o campo como no Rio Grande do Sul, as preocupações dos produtores e das instituições locais ainda não foram basicamente atendidas. A situação não acende nenhum alerta de gravidade, mas, especialmente para os produtores de leite, há a necessidade de respostas imediatas.


Preocupação com o fluxo de comercialização da soja: atenção
Preocupação com o fluxo de comercialização da soja: atenção | Saulo Ohara/24/02/2018
 

 

Na avaliação do engenheiro-agrônomo Robson Mafioletti, superintendente da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), a principal área que precisa de mais atenção do Governo Federal pelo volume de produção do Estado é referente à aceleração do fluxo de comercialização da safra, em especial da soja. Após uma colheita expressiva, estimada em mais de 20 milhões de toneladas, e com a alta do dólar, o desejo dos produtores é vender os estoques o mais rápido possível. “É necessário dinheiro para pagar os cooperados e manter recursos de capital de giro, mas, felizmente, não tivemos problemas de safra e nem dos preços”, afirma Mafioletti. O especialista diz ainda que é boa a expectativa do milho, e que o impacto maior deverá ser para o álcool. “O consumo caiu muito, assim como preço do petróleo, no entanto, é um pedaço pequeno da nossa produção. Temos no máximo 20 usinas”, avalia.



 

Grande parte do volume de vendas dos produtos do agronegócio paranaense tem um destino certo: a China. Gigantesca compradora de soja e frango, a potência oriental representa fatia importantíssima no volume de negócios. As rusgas entre o governo Bolsonaro e seu entorno em direção aos mandatários de Pequim preocupam. Mas, segundo o gestor da Ocepar, já estão sanadas. “A ministra Teresa Cristina tem o relacionamento perfeito e tem sido nossa embaixadora. Todos os governos têm essa parte ideológica, mas não devemos arrumar confusão seja com a China, Irã ou com os árabes. Queremos vender e acredito que a parte do governo que é mais sensata já encontrou um equilíbrio”, opina.

 

LEITE

A maior sensibilidade fica para produtores de alimentos mais perecíveis, como os hortifrútis e o leite. Com grande parte dos restaurantes e bares fechados, o movimento de delivery não tem sido capaz de segurar o consumo nos níveis anteriores aos cuidados de isolamento social. Nas cooperativas, a sensação é de que parte da ajuda prometida ainda não chegou. É o que relata Paulo César Maciel, presidente da Cativa (Cooperativa Agropecuária de Londrina). “O governo faz propaganda grande, mas, para chegar, demora muito. E quando finalmente chega, já acabou o problema ou as empresas ficaram pelo caminho”, diz. A instituição já precisou acudir cinco cooperados que produziam queijo e vê como solução a produção de leite em pó, que dá mais durabilidade. “Não reivindicamos nada de mais. Os bancos precisam apenas liberar financiamento de estocagem. Aí conseguimos saldar os compromissos com o produtor e o pessoal das embalagens. Com isso, não vamos gerar desemprego, nem no campo e nem na indústria. Não pedimos perdão de dívidas”, diz.


Os laticínios, em especial o leite longa vida, foram alvo de uma corrida aos mercados e os consumidores já sentem o aumento dos preços nas prateleiras
Os laticínios, em especial o leite longa vida, foram alvo de uma corrida aos mercados e os consumidores já sentem o aumento dos preços nas prateleiras | Gina Mardones /11/09/2019
 

 

Os laticínios, em especial o leite longa vida, foram alvo de uma corrida aos mercados e os consumidores já sentem o aumento dos preços nas prateleiras. Maciel relata que no início de março as redes varejistas compravam os lotes sem nem questionar o preço devido à alta demanda. Ele relata que o preço estava defasado no último ano, o que somado à entressafra – que deve ser superada entre maio e junho –, deve levar o valor de mercado a uma média entre R$ 2,50 e R$ 2,70. “Houve comerciante que se aproveitou do momento difícil. Teve quem quis ganhar até R$ 2 de lucro por litro, sem a menor explicação. Agora estamos vendendo em média a R$ 2,50 e o preço deve estabilizar. O que não dá é para se aproveitar da crise”, opina.

CARNE

Já no que envolve a produção de proteína animal, o Paraná tem motivos para comemorar. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) consolidados deste ano apontam que o abate de bovinos chegou à segunda melhor marca da série histórica, com 1,452 milhão de cabeças. O volume só não é maior do que foi registrado em 2010, quando o total foi de 1,459 milhão de animais. A produção este ano alcançou 356,06 mil toneladas de carne bovina, maior resultado anual já registrado. A melhoria se deve ao incremento no peso médio de carcaças. O resultado no Paraná alcançou, na média, 245 quilos/cabeça, quase uma arroba a mais que a registrada em 2010.

 

PEQUENOS

O Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (Iapar-Emater) vem acompanhando os pequenos produtores de perto. A avaliação é que não há uma grave crise, em especial por medidas tomadas pelos governos para absorver parte das produções. Os alimentos destinados para a merenda escolar, por exemplo, continuam sendo comprados e repassados para as famílias. “Isso vem sendo feito quinzenalmente e é preciso que passe a ser semanal. Tudo é muito organizado e cumpre as regras de saúde pública”, explica o engenheiro-agrônomo Sérgio Luiz Carneiro, gerente regional do órgão em Londrina. Ele adiantou que o governo do Estado irá lançar na próxima semana o programa Compra Paraná, para destinar alimentos produzidos localmente para as instituições filantrópicas como asilos e creches. “Os problemas são muito pontuais, mas de forma geral nosso produtor está atendido e protegido do vírus. Não houve prejuízo nas produções e eles têm acesso a insumos e serviços”, explica.

 

TRANSFORMAÇÃO



Se o prognóstico da economia nacional não tem sido dos melhores, um dado que vem sendo visto como positivo em meio à crise é uma transformação no comportamento do homem do campo. Antes, muitos eram reticentes à entrada de tecnologia; agora, a dificuldade com o acesso ao comércio está fazendo avançar as transações virtuais. Seja no pequeno ou médio, negócios passaram a ser fechados através do celular e até mesmo o fornecimento de peças foi simplificado. “Antes precisava ir e vir da propriedade para a cidade atrás de peças. Hoje, com um código, um motoboy chega na fazenda com a peça para uma máquina, por exemplo. Isso não irá retroceder”, acredita Antonio Sampaio, presidente da Sociedade Rural do Paraná. Ele avalia que o momento requer sabedoria. “Tudo agora se altera num ritmo e forma que nunca vimos. Há muita incerteza e não sabemos onde vamos parar. O governo tem que tomar medidas e correr atrás, mas até mesmo para cobrar agilidade é algo difícil. Os costumes vão mudar, é preciso ter calma e buscar o razoável”, conclui.

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