As máquinas se rendem às mulheres
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sexta-feira, 18 de julho de 2008
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Já há algum tempo que o pessoal do Sindicato Rural Patronal de Porecatu andava ''encucado'' com um fato: as mulheres ''fugiam'' do curso de operação e manutenção de trator oferecido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Numa época em que a mecanização vai tomando conta de tudo quanto é lavoura, as meninas não demonstravam muito interesse em aprender sobre este bichão de rodas enormes, útil que só ele no campo. Só para se ter uma idéia, no ano passado, 979 homens fizeram o curso do Senar e apenas sete mulheres.
A verdade é que a ''mulherada'' ainda enfrenta um certo preconceito machista no campo. Tem muito homem que olha torto quando vê uma delas chegando perto do maquinário, por isso elas tinham um certo receio de realizar a matrícula no curso e fazer frente a colegas barbados. ''Ainda existe aquele pensamento de que certos serviços não são para mulheres. Porém, nós acreditamos que no mundo de hoje é preciso qualificação, não importa o sexo'', comentou Ana Thereza Ribeiro, presidente do sindicato.
Para incentivar as meninas a subirem no trator, o pessoal de Porecatu foi radical e criou uma turma só de mulheres. Deu certo. As meninas preencheram as 15 vagas e ainda teve gente que ficou de fora. É a prova de que vontade de fazer o curso elas têm, o problema era o medo do preconceito. ''Fizemos essa turma 100% feminina para mostrar que elas não precisam ficar inibidas. A idéia é que as próximas turmas sejam mistas'', destacou Valdevino Sobral, mobilizador do Sindicato.
A FOLHA RURAL foi até Porecatu ver como a mulherada está se comportando. De pranchetas na mão, as alunas anotam tudo. Estão indo bem, tanto na parte de operação quanto de manutenção. Quando questionadas, são unânimes: vão sair do curso, após 40 horas/aula, entendendo muito de trator e não adianta mais nenhum marmanjo dizer que a ''repimboca da parafuseta'' deu problema. O curso ensina tudo sobre os potentes motores das máquinas. Além disso, há a parte de direção. Algumas das alunas pretendem seguir na carreira de operadora de máquina depois do curso.
Entre elas, os perfis são dos mais variados. Tem dona de grande propriedade, técnica em segurança do trabalho, cortadora de cana e pequena produtora, todas unidas no ideal de aprender.
Edna Santana, 39 anos, participa de todo o processo em uma lavoura de cana, desde o plantio até a colheita, faz o serviço manual, verdadeiramente colocando as mãos na terra vermelha do Norte do Paraná. Já está nesse tipo de serviço há 27 anos. Decidiu mudar. ''Deus colocou esse curso na minha vida. Agora, pretendo ser operadora de trator. Nunca havia tido a oportunidade de subir em uma máquina dessas. Está tudo sendo mais fácil do que eu imaginava'', emocionou-se.
Grávida, Rosângela Aparecida Vieira, 22, é cortadora de cana, ''por pura falta de opção'', conforme diz. A exemplo de Edna, vê no curso a chance de mudar de profissão. ''Não vai ser fácil aprender a pilotar o trator, mas com vontade tudo se resolve'', bradou.
Advogada que encontrou a felicidade no campo, Íris Muller, 28, tem uma rotina corrida para cuidar de três propriedades: um sítio, dedicado a ovinocultura e cana-de-açúcar; uma fazenda, com café, eucalipto e mais cana; e também uma estação de piscicultura. Em todas as atividades dela, o trator é mais do que necessário, por isso a opção pelo curso. ''Não é porque não vamos para a lida com a máquina que não temos que saber como é o funcionamento. Temos que ter o conhecimento para instruir, cobrar, analisar se o maquinário está sendo bem aproveitado'', ressaltou.


