As histórias extraordinárias, como as lendas, nascem em geral na roça. Ali surgiu a mais famosa delas, o Saci-Pererê, e, entre outros personagens do folclore brasileiro, o Negrinho-do-Pastoreio, a Mula-sem-Cabeça, o Corpo-Seco. Na beira dos rios da Amazônia ''nasceu'' o Boto, aquele moço bonito que vai à terra pra namorar e costuma fazer um monte de filhos:
- Foi o boto, meu pai. Juro que foi o Boto, minha mãe!
E assim espraiou-se pelos ribeiros e córregos da Amazônia a lenda do Boto Tucupi. E como tem ''menino'' esse homem feito peixe, esse peixe feito homem. Sei lá qual a maneira dele. Protegendo a floresta, está o Curupira, um menino ou anão escurinho, de cabeleira vermelha. Tem os pés ao contrário calcanhar para diante e dedos para trás, fazendo os homens perderem-se por isso, na floresta. Em algumas regiões aparece com orelhas pontudas, dentes verdes ou azuis; peludo, não tem orifícios para secreções, é calvo.
Espírito da floresta, responsável por rumores misteriosos, pelo desaparecimento de caçadores, esquecimentos de caminhos, pavores súbitos. Gosta de fumo e pinga. Tem medo da cruz e se encontra alguma, muda de itinerário. Invencível e de força prodigiosa, bate (percute) nos troncos das árvores, quando se aproxima tempestade. Faz acertos com os caçadores, dando-lhes armas infalíveis, a troco de alimentos sem pimenta ou alho. Tem diversas variantes físicas, conforme a região, mas está sempre na Amazônia.
Outro ''bicho'' que faz lembrar o curupira é o Caipora. Protetor da floresta. Trata-se de mulher ou homem, anda aos saltos, com um pé só, redondo. Geralmente em cima de um porco-do-mato. Pequeno indígena, ou menino escuro. Ágil, nu ou de tanga, fuma cachimbo. É bravo. Aplaca-se sua ira com fumo de corda nas encruzilhadas. Pode ser uma bugrazinha amiga do contato humano, mas ciumenta e feroz quando traída, azarando negócios e empreendimentos. Conforme o lugar tem olhos de brasa, cabeleira de pé (hirta), cavalgando um porco-do-mato, um pé só, redondo, acompanhado de um negro velho e de um negrinho, cabeça arredondada, um olho só no meio da testa. Ocorre no Brasil todo.
No Paraná é um gigante peludo, símbolo da força física nos demais Estados do Sul, ele foi imaginado assim. Em toda parte, gosta de fumo e cachaça, e pune (desnorteando, enganando) quem não o atende. O caipora ressuscita animais mortos. Esses ''bichos'' têm muitas caras, mas seu objetivo é sempre defender os animais silvestres e a mata.
Na água surgiu o Boitatá, ou Cobra D'Água. Esse ser é também, como os demais entes das lendas rurícolas, uma cobra fluída, de luz, com dois imensos olhos e sumiria onde há tesouros escondidos. Boitatá encarna as almas penadas, onde os pecados são purgados. Ataca e mata rapidamente os índios e caçadores. Dos rios saíram também a Iara ou MÃe Dágua.
Já de outras regiões do mundo vieram prá cá outros ''bichos'', como o Lobisomem e o Vampiro, talvez o ''bicho'' importado mais famoso, porque nasceu no lúgubre castelo de Vlad, o empalador, na Transilvânia.
Estas são lendas. Como elas nascem e ficam na memória do povo? Verdade ou mentira, o Paraná também tem suas estórias, conta o escritor Benedito Nicolau dos Santos, em ''Lendas e Tradições do Paraná''. A Lenda da Araucária (Arauco, um belo índio muito forte e Ária, uma loira linda, provavelmente náufraga. Eles se casam, ela morre logo, ele se transforma numa árvore frondosa e ela vira um pássaro que tem em volta dos olhos a sua cor. Assim nasce Araucária, o pinheiro paranaense; ela é a gralha azul...); a Lenda do Monge da Lapa, da Erva-Mate e da Cobra Verde. Sobre a cobra verde é bom falar mais, conforme Aluízio França, folclorista curitibano: a Cobra Verde tem a cabeça no Alto de São Francisco e o rabo na Praça Tiradentes. Nunca ninguém a viu, pois ela passa sob a cidade, derruba parcialmente até casas novas, derruba muros, afunda calçadas e quintais. Como ninguém a vê, não se sabe porque a cobra é verde. Mas, é o nome dela: ''Cobra Verde''. Curitiba tem muitas ledas, a mais recente a da ''loira'' fantasma. Das mais antiga, no Paraná, em O Monge da Lapa, a Lenda da Erva-Mate, do Cação e dezenas de outras.
Dia 19 deste mês é comemorado o Dia do Folclore, quando todas estas estórias são relembradas.

mockup