As cooperativas no novo Século
Dejandir Dalpasquale
A passagem do Dia mundial do Cooperativismo, neste sábado, 5 de julho, nos convida a lançar os olhos para o futuro, a perscrutar a posição das cooperativas na economia globalizada do próximo século, altamente competitiva, tecnológica e internacionalizada - e possivelmente com menos empregos, caso em que o atual apelo ao cooperativismo que ocorre no Brasil não pode ser uma falsa solução, pois a socieddade já está farta de equívocos.
A posição que se vislumbra, em si, é boa para as cooperativas. Em especial, no caso brasileiro, onde estão em franco processo de modernização, urbanização e internacionalização, organizando blocos com países afins em busca de alianças estratégicas na competição pelo mercado.
Como operam a custos e projeções de lucros mais modestos - pois não são empresas, mas associações de cooperação mútua -, devem ocupar um bom espaço como agentes econômicos. Até porque podem preencher nichos que organizações poderosas não ocupam, muitas vezes por considerá-los pouco atrativos a quem opera no curto prazo e no largo lucro.
É o caso do cooperativismo de crédito. Na semana passada, fomos ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, num grupo de 20 lideranças do cooperativismo, inclusive no Congresso Nacional, mostrar-lhe que não têm sentido as normas e outros aparatos com que o Estado pretende amarrar o livre desenvolvimento de cooperativas e bancos de crédito.
As amarras tornam-se ainda mais incompreensíveis neste momento em que os grandes bancos fecham agências no Interior, onde o cooperativismo está sempre presente; e falta o crédito popular que poderia oferecer sem apelar ao mercado informal ou às falsas cooperativas que se abrem para burlar encargos sociais.
Onde repousa aquele projeto do Presidente Fernando Henrique para formar o Banco do Povo? Se os bancos do Estado são gigantes demais para operar com linhas de financiamento popular, por que não permitir que cooperativas de crédito o façam, até a custo menor? Se o BNDES, por ser grande demais, não pode financiar a nova máquina de costura da costureira, a carroça - ou o cavalo - de um carroceiro, uma cooperativa pode.
Mas o avanço do cooperativismo é inexorável pelo novo século adentro, como a sua urbanização e internacionalização. Apesar dos entraves aqui ou ali, as cooperativas brasileiras estão engajadas nessa linha de vanguarda, inclusive projetando sua liderançça no movimento internacional.
Agora mesmo, em setembro, iremos a Genebra eleger o brasileiro Roberto Rodrigues para a presidência da Aliança Cooperativa Internacional. Será a primeira vez, em cem anos, que a presidência da ACI estará nas mãos de alguém que não nasceu na Europa. Presente em 101 países, nos quais agrega 230 organizações internacionais, a ACI representa 715 milhões de pessoas ligadas ao cooperativismo. É a maior ONG do mundo.
Ao entregar a presidência a Roberto Rodrigues, a ACI, uma agência de desenvolvimento, reconhece a projeção do Brasil, que passa a ser o instrumento de avanço do cooperativismo nas fronteiras emergentes de sua expansão: as Américas, a Ásia e a África. O cooperativismo do Século XXI terá a face moldada nas três novas fronteiras, cabendo ao modelo europeu o reconhecimento de que foi ali onde tudo começou.
Às cooperativas do Brasil, a ACI será mais uma oportunidade de abertura de novas portas no mercado internacional, juntando-se às alianças estratégicas que, inicialmente, estamos costurando com o cooperativismo da América latina, do Caribe e dos países de língua portuguesa. Nessa articulação, as nossas cooperativas brasileiras são hoje responsáveis por um terço da produção agrícola brasileira, exportando US$ 1 bilhão em 1996 e indo a mais de US$ 1,2 bilhão este ano. Já estamos a caminho do futuro.
O autor é deputado federal (PMDB/SC), presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras e ex-Ministro da Agricultura.

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