As cooperativas enfrentam o desafio
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de julho de 1997
Paulo Pegoraro Cascavel 
Edson MazzettoCaminhão de cooperativa na BR-277: o pouco que se exporta é para o ParaguaiSegundo avaliação dos dirigentes de cooperativas do Oeste e do Sudoeste paranaenses, a concorrência dos produtores argentinos, em especial trigo, carnes e leite, é a principal dificuldade.
Fábio Rosso, presidente da Cooperativa Central Regional Iguaçu (Cotriguaçu), de Cascavel, que congrega seis entidades e através delas 34 mil produtores, atribui principalmente ao Governo a má-condução das negociações do Mercosul. Ele lembra que as negociações ficaram limitadas durante muito tempo à esfera oficial e às forças industriais de São Paulo, através de sua federação, a Fiesp - obviamente defendendo os interesses do próprio setor.
GlobalizaçãoO setor agrícola começou a ser incluído nas negociações quando as regras já estavam encaminhadas, e só não somos mais afetados na pecuária porque os argentinos não têm presença forte em frangos e suínos, frisa Fábio Rosso.
O diretor-secretário da Cotriguaçu, Sebaldo Waclawovsky, acrescenta que o Mercosul serve como experiência para discussões com outro mercado, a Alca (países da América do Norte), que merece do Governo avaliações mais cuidadosas.
Setor de fertilizantes da Coopavel, que exporta no âmbito do Mercosul.
Sebaldo Waclawovsky observa que o Mercosul e a globalização da economia requerem agilidade, competitividade, redução de custos e aumento da produtividade. A Cotriguaçu ainda não tem negócios no âmbito do Mercosul. Para outros países, vende soja e farelo - neste ano serão exportadas 20 mil toneladas, com faturamento de US$ 6,5 milhões. O terminal de exportações da Central no Porto de Paranaguá, que atende filiadas e terceiros, deve embarcar cerca de 2,3 milhões de toneladas.
O presidente da cooperativa Coopavel, de Cascavel, Dilvo Grolli, também considera como aspecto negativo do Mercosul a influência dos produtos argentinos, que entram no mercado nacional em detrimento da nossa produção. Apesar disto, Grolli salienta que a formação do bloco pode dar ao Cone Sul a condição de competir com os demais blocos mundiais em menos desigualdade, na era da globalização da economia.
QualidadeA Coopavel (quatro mil sócios e faturamento de R$ 180 milhões em 1996) exporta fertilizantes para o Paraguai, outro parceiro do Mercosul - no ano passado exportou 6 mil toneladas (US$ 2 milhões), e em 97 devem ser 10 mil toneladas. Para a Europa exporta soja e para a Ásia carne de frango (US$ 10 milhões anuais).
Setor de cortes selecionados de cooperativa do Oeste. Ocortes são exportados para a Europa e Ásia
Segundo Dilvo Grolli, todos os produtos precisam ter qualidade internacional, lá fora para competir com os locais, e aqui para enfrentar os importados.
A Copacol, de Cafelândia, com cinco mil sócios e faturamento de R$ 271 milhões em 96, até aqui se coloca como compradora, no âmbito do Mercosul, importando do Paraguai mensalmente 3 mil toneladas de farelo de soja para ração para frangos. As exportações são para a Europa - no primeiro semestre de 97 já atingiram 33 mil toneladas, e também para aquele contingente e para a Ásia 5,6 mil toneladas de carne de frango.
O presidente da Copacol, Ildo Pascoalli, observa que se nos países ricos não houvesse subsídios a produtos agrícolas e à proteína animal, com certeza estaríamos com volume bem maior de exportações. Especificamente no âmbito do Mercosul, Ildo Pascoalli entende que, até o momento, para a agricultura brasileira, há prejuízos pelo fato de o Governo não ter resguardado devidamente os interesses do setor.
Custo BrasilNa Cotrefal, de Medianeira, com 4,2 mil cooperados e faturamento de R$ 145,6 milhões em 96, o presidente, Irineo da Costa Rodrigues, aponta o trigo e a pecuária leiteira como segmentos mais problemáticos para competir bem no Mercosul. Os outros países têm custos menores e maior produtividade média, observa. Ele acrescenta que, além disto, o Brasil tem o maior mercado consumidor entre os parceiros, o que estimulou a entrada de produtos.
Irineo aponta ainda o excesso de burocracia, demora em liberações alfandegárias e falta de legislação mais clara como comprometedores das relações no Mercosul. A Cotrefal faturou no último ano US$ 40 milhões, exportando soja e derivados para a Europa e em escala bem inferior para o Paraguai. Procuramos nos modernizar para competir bem na economia globalizada, mas o chamado Custo Brasil também é fator que compromete as possibilidades das empresas, diz.
Como Custo Brasil, alinha impostos, más condições de rodovias e elevadas tarifas portuárias. Apesar de todas as ressalvas, Irineo da Costa Rodrigues entende que o Mercosul tem o mérito de fazer a agropecuária brasileira evoluir mais rápido do que se poderia esperar. O presidente afirma que os associados da Cotrefal estão conscientes da necessidade de se profissionalizar rapidamente para poder competir, tanto em qualidade quanto em preços.
Para Alfredo Lang, presidente da Coopervale, de Palotina (5,2 mil associados e faturamento de R$ 209 milhões em 96), produzir com eficiência e menor custo são as condições básicas para a disputa no Mercosul, e enquanto elas não forem alcançadas continuaremos em desvantagem. Lang afirma ainda que há despreparo dos representantes políticos da agropecuária nas negociações que envolvem o novo mercado.
O dirigente também salienta que os argentinos voltam-se ao mercado brasileiro considerando a existência de um mercado consumidor de quase 160 milhões de pessoas, enquanto a Argentina tem menos de um quarto deste potencial. A Coopervale, que exporta soja para a Europa, passará a agregar valores a este produto e ao milho, utilizando-os para ração para a produção de frangos - no final do ano deve inaugurar um frigorífico para 150 mil cabeças ao dia.


