As abelhas que roubam mel
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Eli Araujo<br>Reportagem local 
A desobediência aos mandamentos bíblicos não é uma exclusividade dos seres humanos. Também entre os animais irracionais existem aqueles que não resistem à tentação e ''passam a mão'' no que é dos outros. Um exemplo curioso vem de uma espécie que sempre teve a fama de operária, as abelhas.
Há quatro anos, o professor Edson Proni descobriu uma espécie destas abelhas no campus da Universidade Estadual de Londrina. Contrariando o que seria lógico, as abelhas cleptobióticas não produzem mel, mas roubam o produto de seus semelhantes. Após a descoberta, o professor decidiu acompanhar mais de perto o comportamento de tais abelhas e iniciou uma pesquisa exclusiva sobre o assunto.
Proni trabalha há 24 anos na UEL e atua na área de Ecologia de Abelhas. Para ele, que é especialista no assunto, a pesquisa sobre estas abelhas representa um desafio, antes de tudo. ''O que estamos fazendo é um trabalho inédito. As informações são desconhecidas no meio científico e não há referência em nenhum lugar''.
As abelhas que roubam mel são conhecidas como Iratim, tem o nome científico de ''Lestrimelitta limao'' e agem de maneira muito bem organizada. Quando precisam se abastecer, um grupo formado por 10 ou 15 abelhas sai do próprio ninho para visitar o ninho de outra espécie que produz mel. Chegando ao local, elas fecham a entrada, impedindo a saída das outras abelhas. Enquanto estão no ninho, elas produzem um cheiro que lembra o limão taiti, entorpecendo as outras abelhas. Dai, a origem do nome científico.
Estas abelhas podem ficar até um dia inteiro no ninho ''visitado''. Quando a situação está sob controle, algumas delas voltam ao ninho de origem e avisam o restante do enxame. Ai elas saem em grupos de 50 a 100 abelhas para buscar o mel roubado.
O professor Proni afirma que as abelhas cleptobióticas podem atacar o mesmo ninho várias vezes por ano. Segundo ele, os ninhos são classificados em fracos, médios ou fortes. ''Os ninhos médios suportam dois ou três ataques, e os ninhos fortes suportam mais porque alguns dias depois eles se recuperam de forma natural pelas próprias abelhas que foram saqueadas''.
Além do ninho que encontrou no campus da Universidade, o professor já detectou a presença das abelhas Iratim na zona rural do município. A espécie não goza da simpatia dos produtores que cuidam de eliminá-las logo que encontram um ninho. O professor recomenda, entretanto, que esta atitude deve ser evitada. ''Já ouvimos as pessoas falarem sobre a extinção dessas abelhas até em congressos científicos alegando que são uma praga, mas não é bem assim''.
Na avaliação de Proni, praticamente não há estudos sobre as abelhas ''ladras''. ''Pouco se sabe como evoluiram, porque não visitam flores, qual é o código de comunicação entre elas, como produzem esse terpenóide, enfim, há muito o que se pesquisar''. Terpenóide, como esclarece, é cheiro característico que essas abelhas produzem e que lembra o limão taiti.
O professor explica que as espécies de abelhas hoje conhecidas são resultado da evolução do planeta há mais de 100 milhões de anos. E defende a preservação das abelhas cleptobióticas até por uma questão humanitária. ''É possível que estas abelhas nos dêem uma resposta científica para a criação de algum medicamento no futuro ou outra condição fisiológica que não conhecemos. Por isso, até pensando de forma egoísta, não devemos eliminar estas abelhas porque elas podem nos reservar algumas surpresas''.
Mas há um porém. Mesmo reconhecendo que as abelhas Iratim são importantes para o ecossistema, o professor recomenda que o mel roubado por elas não deve ser consumido em hipótese alguma. Segundo ele, este mel fica extremamente tóxico e pode até causar a morte da pessoa que o ingere. Proni explica que o consumidor não tem como identificar este mel, tarefa que cabe ao apicultor pela experiência no dia-a-dia.


