Árvores e animais na mesma área
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de setembro de 2000
Cláudia Barberato De Londrina 
Mesmo com resultados previstos no longo prazo, a adoção de sistemas silvipastoris, com o cultivo de árvores e animais num mesmo local, pode trazer aumento na produção de carne ou de leite, melhora nas condições dos pastos e novas perspectivas de renda para o produtor rural com a venda de madeira.
Benefícios progressivos No curto prazo, de dois a quatro anos, dependendo da região e das espécies de árvores escolhidas, segundo o agrônomo da Emater, órgão da Secretaria de Agricultura do Paraná (Seab), Wanderley Porfírio da Silva, haverá a proteção contra ventos e o controle de erosão. Outro benefício será o conforto térmico (sombra) para os animais.
No médio prazo, de cinco a oito anos, além da proteção aos animais, pastagem e solo, o pecuarista terá a produção de madeira fina que serve para lenha, carvão, palanques de cerca e outros fins.
A longo prazo (de 16 a 22 anos), o resultado será a manutenção dos efeitos de proteção aos animais e as pastagens e ao solo, e a produção de madeira para desdobro e laminação.
Com a adoção do sistema de produção animais e árvores, a produção animal cresce e é possível recuperar áreas de pastagens antes degradadas. As árvores fazem deposição de matéria orgânica, melhorando a fertilidade e, portanto, a produção e qualidade do pasto que os animais comem, garante Porfírio.
Falta informaçãoO tempo necessário para o retorno do investimento em atividades florestais pode ser considerado por muitos produtores e até técnicos, um dos principais inconvenientes para a tomada de decisão de ingresso na atividade.
Segundo Porfírio, isso acontece, principalmente em pequenas áreas, onde muitos produtores dependem de produtos da propriedade para viverem o seu dia-a-dia, como é o caso da quase totalidade dos produtores rurais paranaenses.
No entanto, continua Porfírio, é exatamente isto que o sistema silvipastoril objetiva: incrementar a renda e promover a qualidade ambiental sem obrigar o produtor a imobilizar área com floresta.
Todos sabem que a madeira dá dinheiro, mas também sabem que leva um tempo maior do que uma lavoura de milho ou a criação de gado, e raciocinam que se investirem em cultivo florestal terão de deixar a terra imobilizada/indisponível para estas atividades.
No entanto, alerta o técnico, se os produtores raciocinarem de que é possível um sistema onde as árvores cresçam sem afetar o dimensionamento de suas atuais atividades, então não existe limitação do tempo, pois, o investimento, além de ser pequeno paga-se no curto prazo.
Fundo de rendimentos A melhoria do ambiente e do recurso solo, lembra Porfírio, afetam positivamente a produção animal. O sistema beneficia o principal negócio do pecuarista: o gado. A madeira que ele pode colher é como um fundo de rendimentos.
Na atual tendência de mercado crescente no mundo, que é a produção de produtos ambientalmente corretos, segundo Porfírio, outra vantagem para o sistema silvipastoril é que ele passa a ser a forma possível de obter sustentabilidade na produção animal.
Resultados na produçãoResultados da adoção do sistema no noroeste do Paraná já demonstraram que o uso de árvores nas pastagens podem aumentar a taxa de lotação animal em até 30%.
Somente a existência de árvores na pastagem, por si só, seria vantajosa ao propiciar ao produtor mais um produto na mesma área. No caso de produção de carne pode-se esperar um incremento de até duas arrobas de carne a mais por hectare/ano.
Para o gado de leite, o sistema representa, num primeiro momento, proteção e um novo componente forrageiro. Melhorando o conforto dos animais, melhora-se também a produção. A sombra da árvore tem um reflexo direto sobre a produção dos animais ou mesmo evita queda na produção em períodos de calor mais intenso, avalia Porfírio.
Num segundo momento, integra e amplia a renda da propriedade quando seus produtos diretos forem colhidos (madeira, sementes, frutos, pólen). Um hectare de pastagem com 200 árvores manejadas para produção de toras para desdobro em serraria, pode ter uma renda, adicional à exploração pecuária, de pelo menos R$166,00/ha por ano (contabilizando colheita de madeira para desdobro em 15 anos), podendo atingir R$300,00 ha/ano.
A produção de madeira em sistemas silvipastoris, no entanto, pode atingir maior valor em pé por possuírem maiores diâmetros com toras livres de nós e mais compridas (devido sua baixa população por hectare e manejo imposto) podendo ser destinada para laminação.
Ganho na madeiraO setor madeireiro, por sua vez, tem um crescimento projetado para madeira serrada nos países ditos em desenvolvimento, da ordem de 4,5% ao ano até 2010.
No Paraná, o déficit projetado para 2013, para os segmentos de madeira serrada e compensado e laminados, atinge 22.910 hectares de floresta, estimando um crescimento da demanda em 3% ao ano e florestas com produtividade de 500 metros cúbicos/ha, em ciclos de 20 anos e aproveitamento de 60% de toras para serrados e laminados.
Em regiões com alta concentração de áreas de pastagens, como na região noroeste do Paraná (mais de 50% das terras ocupadas com pastagens), os sistemas silvipastoris podem trazer aumentos na circulação de riqueza.
A disponibilidade de matéria prima em quantidade e qualidade (tanto dos animais quanto das árvores) pode favorecer a agroindústria regional promovendo aumento na oferta de empregos via incremento das cadeias produtivas.
Veja o exemplo de uma empresa tipicamente florestal que, ao associar o reflorestamento com gado, diminuiu em 27,5% os custos de condução da floresta até o primeiro desbaste (sétimo ano). Isto demonstra que mesmo o setor não tradicional de produção animal pode se beneficiar do uso dessa prática.


