O ganho genético do uso de DEP (Diferença Esperada na Progênie) é 1,5 quilo/ano. O pecuarista pode achar pouco, mas não é. Em 15 anos se ganha uma arroba por animal e isso continua no rebanho, já que é ganho genético. De ganho real, por exemplo, pode-se conseguir uma diferença de oito quilos mais em peso ao desmame, nos filhos de animais provados. Os ganhos genéticos obtidos são cumulativos e permanentes tanto nos aspectos reprodutivos quanto no ganho de peso e capacidade de produção leiteira.
As informações são do veterinário e geneticista da USP de Ribeirão Preto (SP), Raysildo Barbosa Lobo, que há dez anos desenvolve o Programa de Melhoramento Genético da Raça Nelore (PMRN). Segundo Lobo, a DEP é produto de análise estatística, com base nos dados coletados a campo sobre o desempenho dos animais e a capacidade que terão de repassar suas boas características aos filhos.
Escolha dos paisLobo afirma que o aumento da eficiência da pecuária de corte no Brasil passa pela melhoria da qualidade genética dos rebanhos, ‘‘que pode ser obtida, principalmente, pela escolha dos indivíduos que serão os pais da geração seguinte e direcionamento dos acasalamentos.’’
A maior dificuldade em se identificar esses indivíduos, segundo Lobo, é que o mérito genético, representado pelo conjunto de genes ou os seus genótipos, não é mensurável diretamente’’. A DEP, que expressa o valor genético dos animais avaliados, diminui a margem de erros que possam ser cometidos no processo de escolha dos reprodutores.
Perto do idealO programa de Ribeirão Preto reúne 63 criadores dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Bahia, Pernambuco e Ceará. Anualmente é publicado um sumário de touros. Neste ano o sumário estará pronto em agosto, com a análise de 120 a 130 mil animais.
Nas análises para DEP são considerados seis itens, chamados de Mérito Genético Total (MGT). Quando o pecuarista ingressa no programa, é orientado a fazer estação de monta, do seu rebanho, de no máximo 90 dias, com finalidade de produzir as crias em grupos contemporâneos. São feitas quatro pesagens ao ano, nos meses de janeiro, abril, julho e outubro, desde o nascimento dos animais até os 21 meses. Nos machos é medido o perímetro escrotal dos 11 meses aos 21 meses. No final é calculado o perímetro aos 12 meses e aos 550 dias.
A partir das pesagens anuais têm-se DEPs aos 120, 240, 365 e 550 dias dos animais. Os dados estatísticos finais sobre o perímetro escrotal são aos 365 e 550 dias. Com essas informações e usando metodologias de um modelo animal, é predita a DEP de animais jovens, matrizes e touros.
Sumário de fêmeasO PMGRN também faz uma análise visual dos animais, chamada MERCO (Musculatura, Estrutura, Características Raciais e Ônfalo), ainda a nível experimental. Ônfalo, explica Lobo, quer dizer tamanho do umbigo. Não interessa, por exemplo, animal de umbigo grande que o animal possa arrastar no pasto e se machucar.
O sumário deste ano trará também DEP para idade ao primeiro parto, período de gestação e fertilidade real, ou seja, quantos quilos de bezerros desmamados por fêmea. O departamento de Genética da USP está fazendo também DEPs das raças santa gertrudis, canchim e caracu. Para agosto está previsto o sumário para touros santa gertrudis e canchim e, no ano que vem, do caracu.
Segundo Lobo o PMGRN tem incentivado o uso de animais jovens de alto valor genético identificados na avaliação. Para auxiliar o pecuarista nas decisões sobre o acasalamento, o programa vem colocando no mercado, pelo terceiro ano consecutivo, os resultados da Avaliação Genética de Animais Jovens, Touros e Matrizes, com DEPs para habilidade maternal, pesos e perímetros escrotais de animais participantes.
Modelar os animaisSegundo o superintendente do Registro Genealógico de Raças Zebuínas no Paraná, da Sociedade Rural do Paraná, Ireno Cassemiro da Costa, hoje os criadores especializados escolhem os reprodutores e matrizes somente através dessas análises. ‘‘O objetivo é que um reprodutor ou uma matriz possa transferir suas boas características às crias,’’ explica. De acordo com Costa, a DEP é bastante utilizada em gado de corte e pode servir para ‘‘medir’’ ou ‘‘definir’’ o que se quer no futuro animal, direcionar os acasalamentos e aumentar a produtividade do rebanho de qualquer raça. No gado de corte, o mais comum tem sido usar a DEP para ganho de peso. No rebanho leiteiro, há interesse em obter fêmeas que não tenham dificuldade de parto, sejam boas mães e também boas produtoras de leite.
Costa é o responsável, no Paraná, pela coleta de dados no campo, de animais da raça nelore, que são repassados à Associação Brasileira de Criadores de Nelore (ABCZ), com sede em Uberaba (MG). É de lá que sai um sumário de touros para orientar a compra de sêmen ou mesmo de reprodutores.
Deps para tudoExistem outros métodos de análise para definir os acasalamentos. O Programa Natura do Rio Grande do Sul, por exemplo, trabalha como uma estimativa de como será o desempenho médio das crias de um determinado touro em comparação com a do touro base. O animal base é um macho 3/8 brangus. Basicamente as características de produção analisadas são: ganho de peso, conformação, precocidade e musculosidade.
De acordo informações do site do Natura na Internet as avaliações genéticas são feitas com base na Metodologia dos Modelos Mistos Modificada (Método Gensys). No Brasil, além do Natura, ABCZ e PMGRN, existem outros grupos que fazem a DEP como o Paint, da Lagoa da Serra e a Agropecuária CFM, ambos no interior de São Paulo.
Fêmeas mais precoces De acordo com informações no Anualpec 98, da empresa paulista FNP Consultoria & Comércio, no caso da CFM, os touros nelore são procedentes de rebanhos com seleção para fertilidade, com eliminação anual das fêmeas vazias após estação de monta curta, há mais de 20 anos. Os touros que não têm bom desempenho na monta natural também são eliminados anualmente.
Além desses benefícios, o uso contínuo de touros melhoradores traz vantagens econômicas na precocidade sexual e na terminação, fazendo com que haja maior uniformidade no rebanho, com mais bezerros nascidos por ano em menor tempo. No futuro, segundo os consultores paulistas, o ideal é que a fêmea nelore inicie a reprodução aos 14 meses de idade, agregando valor de pelo menos mais 10% à taxa de desfrute, situação já iniciada na Agropecuária CFM.

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