Artesão volta para o campo e muda de vida
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sábado, 15 de dezembro de 2001
Carolina Avansini<br>De Londrina 
A história do agricultor e artesão pernambucano Enoque Ferreira Lima, 51 anos, contraria a trajetória de muitos nordestinos que vêm para o sul do País em busca de oportunidades e acabam se estabelecendo nas grandes cidades, onde sobrevivem com subempregos em precárias condições de vida. Nascido e criado na zona rural de Pernambuco, ele abandonou o trabalho na agricultura aos 23 anos, aprendeu o ofício de artesão e sustentou a família com essa atividade até 1996, quando mudou-se para o distrito de Lerroville, na zona sul de Londrina, ansioso por oportunidades. No Paraná, onde planejava ficar apenas dois anos, resgatou suas raízes. Começou a tocar lavouras de café como arrendatário e desde junho deste ano, graças ao programa Banco da Terra, alcançou a condição de pequeno proprietário.
Casado com Maria Fracinete de Sá Lima, 49, pai de cinco filhos entre 10 e 26 anos, ele comemora a estabilidade obtida com as terras próprias. Os filhos, que só aprenderam a trabalhar na agricultura depois da mudança para o sul, são os responsáveis por tocar a lavoura. Tranquilo na propriedade, Enoque se prepara para retomar um importante projeto: voltar a se dedicar à arte e quem sabe conseguir reconhecimento entre o público paranaense.
Trajetória
O agricultor deixou o campo porque ficou doente e sem condições realizar o pesado trabalho no campo. Preocupado com o sustento, se empregou em uma empresa de artesanato e aprendeu a confeccionar esculturas de madeira, atividade que também ensinou à mulher e aos filhos. ''Aqui em casa, todo mundo é artista'', revelou. Depois de oito anos, a firma fechou e Enoque se transformou em artesão autônomo. Dedicou-se à arte até mudar-se para Londrina, onde já tinha parentes. ''No Paraná, parei com as esculturas para tocar a roça'', lembrou.
Foi nas lavouras paranaenses de café que ele ensinou aos filhos o ofício de agricultor. Edmilson, 18, é o principal responsável pela lida, pois o pai não tem condições físicas. ''Nunca tinha trabalhado em lavouras mas aprendi rápido e gostei. Se depender de mim, não quero deixar a vida na zona rural'', afirmou o rapaz.
No ano passado Enoque ficou sabendo do programa Banco da Terra, que financia a aquisição de pequenas propriedades (ver texto ao lado). Formou um grupo com o filho casado e mais quatro sobrinhos, se inscreveu e foi beneficiado, junto com os outros, com um lote de 11 hectares (ha) na fazenda Akolá (distrito São Luiz), que foi dividida entre 42 famílias. ''Somos o grupo pernambucano'', afirmou com orgulho.
Terra própria
A família Lima mora nas próprias terras desde junho. A residência está sendo construída mas já abriga os três filhos que ainda vivem com os pais. Enoque e Maria moram na sede da Associação de Produtores da Fazenda Akolá e são os responsáveis pelo imóvel. ''Em breve vamos morar todos juntos'', disse a agricultora. Eles já plantaram milho, feijão, cará, mandioca, abóbora e um pequeno pomar com mudas de banana. Em três ha, cultivarão café e laranja, que provavelmente será vendida para uma cooperativa.
p Com as condições oferecidas pelo programa, Lima acredita que conseguirá pagar a dívida inerente à aquisição da terra e sobreviver com tranquilidade. ''É só trabalhar direito'', argumentou. A associação com os outros produtores beneficiados deve ajudar a conseguir insumos a preços mais acessíveis e garantirá volume para a comercialização. ''Aprendi que a união torna as coisas mais fáceis'', disse.
Ele também comemora a reunião da família. ''Agora vamos morar todos próximos. Pela minha vontade, todos os meus filhos continuarão a viver na zona rural'', salientou. Edmilson, Eduardo, 10 e Edilene, 14, pretendem satisfazer o desejo do pai. ''Gostamos muito daqui'', afirmaram. A filha mais velha, que está desempregada em São Paulo, também terá condições de voltar a viver com os parentes. ''Ela vem passar o final do ano e se quiser, poderá ficar com a gente'', contou Maria Fracinete.
Retomando a arte
Graças à estabilidade obtida com a prática da agricultura em terras próprias, Enoque está planejando voltar a produzir e comercializar esculturas de madeira. ''Sou apaixonado pela arte'', declara. Ele vai participar de uma feira de artesanato que a secretaria municipal de Cultura promoverá a partir do próximo ano. ''Com essa divulgação, acho que encaminharei meu trabalho.''
Santos, carrancas e figuras diversas são reproduzidos pelo artista em vários tipos de madeira. O valor mínimo das peças é R$ 20 e ele garante que é capaz de confeccionar todo tipo de objetos. ''Faço qualquer coisa que o cliente encomendar'', promete.


