Armazenamento na medida certa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de março de 2002
Cláudia Barberato<br>Equipe da Folha 
Bela Vista do Paraíso O agricultor Stefan Stremlow está entusiamado com a unidade de armazenamento que montou na sua propriedade em Bela Vista do Paraíso (40 km a norte de Londrina) no Norte do Paraná.
Com o processo de cultivo, colheita, limpeza, secagem e armazenagem de toda a produção ele espera fechar todo um ciclo, agregar maior valor à sua produção e ofertar um produto diferenciado no mercado. A fazenda Vale Verde tem 400 hectares com os plantios de soja, trigo e milho e agora o agricultor deverá apostar também no feijão.
O investimento na unidade armazenadora que inclui limpeza e secagem dos grãos, segundo o agricultor, serviu não só para guardar a produção (na espera de melhores preços), mas para ofertar um produto de maior qualidade no mercado, dentro dos moldes das exigências da rastreabilidade, sistema que permite saber como foi realizado todo o processo, da lavoura até a indústria.
Sair do anonimato
Quando a gente entrega a produção em unidades maiores, de cooperativas, cerealistas, indústrias ou outras, acaba ficando no anonimato. Não há valorização por um produto diferenciado, todo mundo recebe a mesma coisa e nem sempre os grãos têm a mesma qualidade. Não importa muito se o agricultor caprichou na produção porque no final das contas tudo acaba misturado na cooperativa ou na indústria, comenta Stefan.
Segundo o produtor, entregando em outras unidades armazenadoras, o agricultor dificilmente pode conseguir preços diferenciados e fica sujeito aos preços de mercado ditados pela lei da oferta e demanda.
Com a possibilidade de guardar um pouco mais a produção ou vender antes de outros é possível, garante Stefan, lucrar mais. É importante para o agricultor armazenar sua própria produção porque pode planejar a comercialização e ofertar um produto diferenciado.
De olho num consumidor cada vez mais exigente e que pode pagar um pouco mais por um produto diferenciado, Stefan acredita que pode conseguir agregar maior valor à sua produção, trabalhando também com a oferta em tempos de escassez. Se não tivesse a unidade armazenadora isso não seria possível. Até pouco tempo o pequeno e médio agricultor não tinha essa possibilidade já que o sistema tradicional de armazenagem exigia um investimento bastante alto.
Quero também ofertar um produto com meu nome, afirma Stefan. Além da vantagem econômica ele destaca que concentrar o processo de limpeza e secagem dos grãos na propriedade tem uma vantagem agronômica para o agricultor. Pode-se colher os grãos mais úmidos e no processo de secagem garantir sua qualidade.
Viabilidade e retorno
Todo o equipamento instalado na fazenda Vale Verde custou R$ 250 mil. A área de cultivo da fazenda é de 400 hectares e pelos cálculos de Stefan o investimento deverá se pagar em três anos pelas vantagens que poderá trazer. Stefan usou uma linha de financiamento para armazenagem com três anos de carência e prazo de até cinco anos para pagamento com juros de 8,75% ao ano.
Ele acredita que agricultores com áreas de 100 a 150 hectares podem viabilizar a instalação de um equipamento semelhante, investindo primeiro numa unidade (silo) e depois ampliando. Até pouco tempo atras não tínhamos nenhuma empresa ou equipamento dimensionado para pequenas e médias áreas, e agora já temos esta alternativa, comenta. As máquinas de limpeza, moega e rosca são móveis e poderão servir a um ou mais silos instalados em várias propriedades. No caso da Vale Verde existem dois silos com capacidade para secar 7.500 sacas e armazenar até 10 mil sacas.
O sistema também traz a oportunidade da diversificação, diz Stefan, que está colhendo a soja mais cedo, vai plantar o milho safrinha e ainda dará tempo para fazer o cultivo da aveia branca. Hoje está armazenando a soja, depois vai colocar o milho em um silo e trigo no outro e depois o feijão. O equipamento não ficará ocioso e se ficar poderá servir para outros agricultores da região que estejam interessados em armazenar a produção.
Os resíduos da pré-limpeza dos grãos também serão aproveitados. Eles podem ser vendidos para alimentar animais. Esse subproduto, quando se entrega o grão em outra unidade armazenadora não é remunerado, mas quando se vai comprar passa a ter valor.
Diferencial nos preços
O processo de limpar, secar e armazenar na propriedade de Stefan Stremlow foi montado no ano passado, para receber o trigo cultivado. Com a produção de 26 mil sacas de trigo o agricultor conseguiu um diferencial de R$ 2 reais por saca do produto.
A remuneração melhor pelo trigo, segundo Stefan, deu-se pela colheita antecipada do grão. Stefan acredita que no caso da soja, que está colhendo agora, também se antecipando a outros agricultores da região, o diferencial poderá ser até maior e ainda terá a área liberada mais cedo para cultivar o milho safrinha.
A colheita precoce com os grãos mais úmidos, segundo ele, é possível porque a unidade armazenadora tem também o equipamento de secagem dos grãos. No caso do trigo cultivado no ano passado Stefan conseguiu colher mais cedo e fugir da chuva que atrapalhou a produtividade e qualidade da lavoura em outras propriedades.
O trigo, segundo ele, foi colhido com 28% de umidade. No esquema tradicional de colher e entregar o produto em uma unidade armazenadora não se permite índices acima de 18% de umidade. A espera em filas para a limpeza, moega e secagem, nessas grandes unidades armazenadoras pode trazer proliferação de fungos nas cargas já que o produto fica exposto a variação de temperatura, explica.
No caso da soja, segundo Stefan, o sistema de secagem e armazenamento instalado na propriedade permite antecipar e colher os grãos com uma umidade de 22% a 25%, quando o normal (caso do agricultor que não tem o equipamento na propriedade e é obrigado a colher e entregar direto na unidade que vai processar o grão) é colher a soja com 16% a 17% de umidade.


