A agrônoma Maria Augusta junto de pés de alecrim e manjericão: cheiro forte repele os insetosNas hortas existentes nos quintais de nossas avós era comum nos depararmos com uma miscelânia de cheiros, vinda dos muitos ‘‘matinhos’’ que elas plantavam em meio às verduras. Quando alguém se queixava de dor de cabeça, estômago, garganta, má digestão ou diarréia, lá estavam elas, colhendo suas ervas para fazer chás milagrosos. Se forçarmos um pouquinho mais nossa memória, vamos lembrar também que as hortaliças colhidas por aquelas sábias mulheres nunca receberam uma gota de inseticida, e no entanto, jamais saboreamos alfaces e couves tão viçosas.
Conscientemente ou não, o plantio de ervas aromáticas junto à horta - ou mesmo no jardim da casa - cumpria dupla função. Além de servirem de remédio aos males da família, as ervas espantavam os predadores das hortaliças (insetos principalmente) que, na falta de controle, chegam a dizimar os canteiros. E assim continua até hoje. Muitos produtores conscientes com os estragos provocados pelos produtos químicos perpetuam a tradição, e em busca da qualidade de vida, lançam mão de verdadeiras armadilhas oferecidas pela natureza.
Confusão de cheirosO efeito das ervas sobre o ataque de determinadas pragas funciona basicamente de duas maneiras: repelindo os insetos através do aroma exalado ou atraindo-os, de maneira que deixem as outras plantas livres de sua voracidade. Segundo a engenheira agrônoma Maria Augusta Gambarini Spagnolo, que presta assessoria a pequenos agricultores interessados em produzir organicamente, os insetos são guiados pelo olfato, e o ‘‘perfume’’ de determinadas plantas pode confundi-los, direcionando-os para onde o cheiro é mais forte.
Dorico da SilvaA losna, erva capaz de combater o ataque de lesmas e lagartas.
Ela lembra que há ainda os casos em que os insetos são bem-vindos - como as abelhas, que são polinizadoras - e também neste caso as espécies vegetais são usadas com a função de atrair. Entre as ervas melíferas (que produzem mel) estão a sálvia, o alecrim, a mirra e o manjericão.
São vários os exemplos de plantas companheiras (que são utilizadas junto a outras com a função de atrair ou repelir pragas). Maria Augusta cita o girassol, que plantado junto com o milho, atrai para si as lagartas. A estratégia é especialmente válida para pequenas áreas, e a agrônoma recomenda que a cada 100 pés de milho sejam semeados dois de girassol.
A tagetes, mais conhecida como cravo-de-defunto, pode ser muito eficiente no controle do nematóide, verme que costuma atacar culturas como a batata-doce e a mandioca-salsa. Para áreas ainda não infestadas, deve ser plantada nas bordaduras, para impedir a entrada da praga. Para eliminar o verme já no solo, planta-se intercalada com a cultura ou em rotação (sem alimento, os nematóides acabam morrendo).
Iscas poderosasPara combater um terrível problema para os produtores, que são as saúvas, a agrônoma lembra do gergelim, alimento muito apreciado por este tipo de formiga. Funciona assim: as saúvas se alimentam de cogumelos (fungos), mas usam as folhas do gergelim (que contém uma susbstância denominada sesamina) para adubá-los. A ação tóxica da sesamina acaba matando os cogumelos, e o inseto, sem alimento, também perde seu meio de sobrevivência. Para um melhor resultado, o ideal é que o gergelim seja plantado nas bordaduras do local infestado pela praga.
Já nas áreas infestadas por joaninhas e pulgões, uma boa alternativa é usar pés de acelga como iscas. Como é muito apreciada por estes tipos de pragas, a hortaliça deve ser intercalada nos canteiros de couve-manteiga, repolho, alho e cebola, entre outras. ‘‘Para se ter uma idéia, as folhas de acelga, que neste caso não servirá para consumo, ficam inteiramente ‘rendadas’, enquanto as outras espécies podem se desenvolver em paz’’, afirma Maria Augusta.
Entre as ervas repelentes mais conhecidas estão o funcho, arruda, menta, erva-doce, endro, alfavaca, manjericão, alecrim, pimenta vermelha, orégano e manjerona, que ‘‘assustam’’ pulgões, vaquinhas, joaninhas e cochonilhas. Para repelir lagartas e lesmas, um bom recurso é o plantio de pés de losna por perto. ‘‘E em áreas que sofrem ataque de coelhos, pode-se plantar cebola de cabeça nos arredores da plantação’’, completa a agrônoma.
Maria Augusta também chama de plantas companheiras aquelas que, consorciadas com outras, corrigem falhas resultantes de características de algumas espécies. O rabanete, por exemplo, tem raiz fina, e dá melhores resultados quando consorciado com a alface, que tem um tipo de raiz que se espalha e revolve o solo. Além disso, rabanete é cultura de ciclo curto e a alface de ciclo médio. ‘‘Logo depois de transplantada a alface, o rabanete deve ser semeado. Assim, pode ser colhido quando os pés de alface começam a fechar’’, ensina a agrônoma, lembrando que outra boa forma de consorciamento é entre plantas de raiz - como a cenoura - e folhosas.

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