Argentino recomenda cautela ao Brasil
Cláudia Lopes
Oscar Keller, agrônomo do Instituto Nacional de Tecnologia (Inta) na Estação Experimental de Rafaela, Argentina, lembra que há quatro anos a semente de soja RR era praticamente desconhecida na Argentina. Hoje, 70% da produção total são de transgênicos. E no ano que vem deve aumentar para 100%, previu. A safra de soja na Argentina é de 20 milhões de toneladas/ano.
No Brasil, os registros de cinco variedades da Monsanto foram aprovados há pouco pelo Ministério da Agricultura. Mas, o agrônomo argentino recomenda cautela aos brasileiros, na introdução dos transgênicos. Não precisa ser tão rápido como aconteceu na Argentina, afirmou. O ideal é que a produção seja mesclada com as duas sojas, para evitar futuros problemas de comercialização.
Keller falou à Folha durante visita de comitiva de agropecuaristas paranaenses àquele país, promovida pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Senar e Sebrae, em maio. O agrônomo e pesquisador disse não acreditar em problemas de saúde decorrentes do consumo da soja transgênica, já que o produto foi aprovado pela Secretaria da Agricultura argentina.
Para ele, a Europa - principalmente a França - só está se opondo aos transgênicos, por não ser a criadora da tecnologia. Se tivessem sido os franceses e não os americanos a descobrir o gene, certamente os europeus não colocariam restrições a este tipo de soja. É uma questão comercial, garantiu. Mas, os europeus estão falando mais do que agindo. Prova disso é que nenhum dos barcos argentinos com soja transgênica com destino à Europa, voltou este ano.
O diretor da Estação Experimental Agropecuária Paraná, na Província de Entre Rios, Ruben Moresco, entende que os transgênicos não trazem risco nenhum à saúde. Não foi descoberto nada contra sua utilização até agora, diz. Mesmo assim, o retorno à soja convencional seria fácil, caso acontecesse algum problema. Iríamos precisar de alguns anos, para formar um novo banco de sementes convencionais. Algumas sementes deste tipo estão sendo guardadas pela Secretaria da Agricultura da Argentina.
Por enquanto, os produtores de soja compram sementes transgênicas apenas no primeiro ano e depois passam a armazená-las, para poder utilizá-las nos anos seguintes. Iria complicar se a Monsanto colocasse um gene terminal nas sementes para que os agricultores tivessem que comprá-las todos os anos. Mas, os produtores já estão fazendo pressão em cima da multinacional, para que isso não aconteça, conta Moresco.
Ele acredita não haver meios de parar a migração para a soja transgênica porque, além do fácil manejo, a diferença no custo de aplicação de herbicida em relação à soja convencional representa entre US$20 e US$30 dólares por hectare. É uma diferença significativa no bolso do produtor, diz. Por isso, acredito que a migração para a soja transgênica seja rápida no Brasil depois da liberação.
Mesmo com os transgênicos, a área da próxima safra de soja na Argentina deve diminuir, caso o preço do produto continue baixo, segundo Moresco. Neste ano, a tonelada está sendo vendida a US$140 - preço equivalente ao que está em vigor no Brasil. O preço anterior na Argentina variava de US$170 a US$180 a tonelada. Atualmente, para empatar o custo com o lucro, é preciso produzir 1,5 tonelada por hectare, calcula o pesquisador.
Mas, por causa de problemas climáticos, de inundação e de seca em algumas partes do país, muitos agricultores só conseguiram produzir entre 1 e 1,2 tonelada por hectare neste ano. O prejuízo vai fazer eles migrarem para o milho, se o preço da soja não voltar ao normal, previu Moresco. O custo para produzir a soja por hectare na Argentina é de US$200.





