Marcos Zanatta
De Maringá
A mandioca, cultura que melhor distribui renda e gera empregos, está se tornando cada dia mais importante para a economia da região noroeste do Paraná. A área de plantio, que chegou a 172 mil hectares na safra passada, deve crescer em torno de 10%, mesma média registrada nos últimos três anos. Por safra, o Paraná chega a produzir 3,5 milhões de toneladas de raiz. Mesmo assim faltou mandioca no início do ano. ‘‘A maior parte da produção vai para as indústrias, que estão passando por um momento de demanda aquecida’’, explica Ivo Pierini Júnior, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mandioca, entidade que agrega todos os setores da cultura.
Além do aumento do número de indústrias de transformação, que estão investindo na região de Paranavaí, no Noroeste, o mercado está desabastecido. O Nordeste do País, principal consumidor de farinha de mandioca, é o destino de maior parte da produção local. A seca, segundo os farinheiros, está provocando quebras consecutivas nas lavouras do Nordeste, que são obrigadas a comprar no Paraná.
Sem estoquesOutro fator que está contribuindo para o crescimento da demanda, revela Pierini Júnior, é o fim do estoque regulador do Governo. Ele lembra que o estoque chegou a ser de 400 mil toneladas de derivados. Hoje nem existe, e poucas indústrias estão conseguindo manter um estoque estratégico. ‘‘O que produz vai para o mercado’’, conta.
Pierini Júnior acha que a falta de uma política de estocagem ‘‘é perigosa’’. ‘‘Se houver um crescimento muito grande da produção, vai ocorrer excedente que pode mexer com o mercado, provocando em seguida a escassez’’, afirma. Para Demerval Silvestre, da Associação da Indústria de Mandioca do Paraná, apesar do mercado estar estabilizado, o setor passou por uma ‘‘peneirada’’ nos últimos anos.
Hoje, segundo ele, a mandioca exerce uma importância muito grande para a região noroeste do Estado. ‘‘Muitas empresas de ponta, inclusive de química fina, estão investindo aqui por causa da mandioca, e acho que isso passou a ser uma segurança para o produtor’’, acredita. Ele lembra que além do Nordeste, todo Centro-Oeste do Brasil compra derivados do Paraná. ‘‘A mandioca gera muito emprego, distribui renda, mas enfrenta dificuldades que poderiam ser evitadas pelo governo’’, critica. Ele calcula que a cada hectare a cultura gera um emprego em todo segmento. ‘‘Portanto, apenas a mandioca do Paraná está gerando 172 mil empregos’’, diz.
TributosSilvestre lamenta que apesar de ser uma atividade importante para a mão-de-obra desqualificada, sofre muita pressão tributária e de fiscalização. O dirigente da entidade, que representa as indústrias, reclama que o último alvo da fiscalização tem sido os pequenos produtores, a maior parte que pratica a agricultura familiar.
Sem condições de contratar a mão-de-obra para a colheita, os pequenos prorietários recebem o apoio das farinheiras, que indicam uma turma de trabalhadores volantes e fazem o adiantamento para as despesas. ‘‘Repassamos 25% do valor para o frete e a colheita’’, diz Silvestre. A fiscalização, segundo ele, tem pressionado e até multado as farinheiras. ‘‘Nós não temos terra, nem lavoura, e estamos apenas viabilizando a pequena lavoura, onde a família toca a propriedade mas não tem como colher sem contratar trabalhadores volantes’’, explica.
Para o produtor, apesar da demanda aquecida, a margem de lucro vem caindo. ‘‘Fomos obrigados a assimilar o reajuste de alguns insumos, mas ainda existe condição para trabalhar’’, afirma João Eduardo Pasquini, que tem uma farinheira e planta mandioca em Nova Esperança (35 quilômetros a noroeste de Maringá). Ele defende o incentivo à cultura, que além de gerar emprego e renda, ocupa áreas de pastagens e de outras atividades de pouca expressão para a economia regional.
CustosEntre os insumos que sofreram reajuste nos últimos meses, Pasquini cita os derivados de petróleo. A maior parte das farinheiras, lembra, trocaram a lenha pelo éleo diesel nos fornos de secagem. ‘‘O litro do óleo subiu de R$0,80 para R$1,20 em pouco tempo, e fomos obrigados a assimilar o aumento porque não existem condições de repassar para o produto’’, lamenta. Outro insumo que teve o preço majorado foi a sacaria. A produção de Pasquini, em torno de 8 mil sacas por mês, vai toda para Sergipe, Piauí e São Paulo.
Durante alguns meses, diz o produtor, chega a faltar mandioca. ‘‘Por causa da diversificação das indústrias’’. Ele lembra que pouco tempo atrás apenas as farinheiras compravam. Hoje empresas que estão se instalando na região querem produzir amido e até glicose, que tem preços melhores. Para garantir a matéria-prima, Pasquini arrenda terras e planta mandioca. ‘‘Principalmente para a entressafra’’, revela. Junto com um irmão ele está cultivando 80 alqueires, que deve render cerca de 50 toneladas de raiz. ‘‘A gente tem que produzir direto porque o mercado está bom o ano todo para a farinha’’, diz.

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