Imagem ilustrativa da imagem Ar fresco no campo


O Tio Arnaldo era um homem muito caprichoso, criativo e educado. Morava com a família num sítio na Água da Pimpinela. Certa ocasião achou por bem colocar energia na casa. A região naquela época não tinha eletrificação rural. Foi até a cidade e comprou um gerador, polias, correias e um "rodão" de água para botar em movimento o gerador. Fez uma casinha onde instalou a engenhoca dele. Puxou uma fiação para a casa onde acendia quatro ou cinco lâmpadas.

Deve-se dizer que a energia era fraca, com oscilações, mas para quem só tinha lampiões e lamparinas era um grande avanço. Certo verão fazia um grande calor na região, ele foi à cidade e adquiriu um ar-condicionado. Levou para casa e ele mesmo instalou. Naquela noite, todos ansiosos para pôr o aparelho em funcionamento, inclusive Queila, a filha mais nova e que namorava o Armando, um italiano grandão que foi convidado para a "inauguração".

Todos no sofá de olho no aparelho, como se fosse uma televisão. Tio Arnaldo ligou o mesmo. Fechem as portas e as janelas para o ar não sair! Passou mais de uma hora e nada da sala resfriar. Dona Zéfina, uma vizinha, morena e bem obesa, estava suando "em bicas", ensopando a toalhinha que tinha trazido. E nada de refrescar a sala.

O tio teve a ideia de apagar as lâmpadas para ver se melhorava o rendimento do aparelho, pois acreditava que as lâmpadas estavam lhe "roubando" energia. Aí que a coisa piorou. Na escuridão, a tia Edi foi à cozinha e trouxe uma lamparina acesa. Armando falou alto, mas se já está quente a sala, agora vai piorar com a lamparina.

Tia Edi, que já estava muito "ranheta" por conta da menopausa, foi logo dizendo para ele sair da sala, já que não estava contente. Mas a Queila fica, disse ela. Nisso notaram que tinha uma goteira que saía do aparelho. Tia Edi foi logo gritando: "o Arnaldo furou o aparelho na hora de instalar". Desligaram. Dias depois souberam que a água era normal e que a energia era pouca para pôr o aparelho em funcionamento.

Não satisfeito, tio Arnaldo, dias depois, foi à cidade e comprou um motor estacionário a diesel e um gerador mais potente. Instalou o mesmo na porta da cozinha. Novamente à noite, todos na sala, fechem as portas e as janelas que é para o ar não "fugir".

Tio botou o motor para funcionar. Tinha resolvido o problema, pois o aparelho estava esfriando. Mas o barulho do motor era ensurdecedor, além de provocar uma fumaça sufocante. Almir, o filho mais velho que sofria de "bronquite", começou a crise por causa da fumaça, com uma chiadeira no peito e falta de ar. Foi levado para o hospital da cidadezinha onde ficou dois dias internado. Tia Edi, zangada como sempre, proibiu o funcionamento do aparelho e dizia: "Arnaldo, você gastou um dinheirão com suas manias e não deu em nada". Tio Arnaldo sempre calmo respondia. "Eita muié, pelo menos valorizou a casa".

Compadre Cassemiro dizia: "Compadre esse teu aparelho é igual cinzeiro em charrete, não serve para nada".

Era só risadas.

Sidney Girotto, leitor da FOLHA

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