Para alguns ele é um mito, mas para outros uma constatação. O aquecimento global ainda gera muitas discussões e está cercado de paradigmas. A agricultura, mencionada por alguns especialistas como uma das principais contribuintes de tal fenômeno, pode também ser uma das grandes prejudicadas. Segundo estudo realizado pelo Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Universidade de Campinas (Unicamp), se confirmada a tendência de aumento da temperatura da terra, os prejuízos econômicos no agronegócio brasileiro podem chegar a R$ 7,4 bilhões em 2020 e R$ 14 bilhões até 2070.
O pesquisador do Cepagri Hilton Silveira Pinto aponta que se nada for feito para reverter o atual quadro de emissões de gases que contribuem para o efeito estufa, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio do País pode sofrer uma queda de 2,5% ao ano no decorrer das próximas cinco décadas. Somente a produção de soja pode sofrer uma perda de 20% em um prazo de 20 anos. Na cultura cafeeira, o índice de queda na produção deve chegar a 12%. Segundo o pesquisador, a única cultura que poderá ser beneficiada com o aumento de emissões, principalmente com o dióxido de carbono (CO2), seria a cana-de-açúcar.
No caso de culturas como soja, café e feijão, Pinto explica que com a temperatura ambiente acima de 33°C, as flores abortam, ocasionando a redução da produção. "O problema principal do aquecimento é o abortamento."
Uma das saídas para amenizar os prejuízos seria a adoção de variedades de plantas resistentes ao aquecimento. "Novas tecnologias e um manejo adequado podem ajudar", salienta o pesquisador. Para ele, não há como reverter o aquecimento, mas ele pode ser equilibrado. Pinto destaca que o Programa de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), desenvolvido pelo governo federal, possui itens que podem ajudar a agricultura brasileira a se tornar mais sustentável.
Segundo ele, a adoção do sistema de plantio direto, por exemplo, pode incorporar até 500 quilos de CO2 por hectare, sendo uma das técnicas mais utilizáveis na agricultura. O produtor também precisa ter consciência da forma como lida com a terra: o uso em demasia de defensivos e fertilizantes libera na atmosfera o metano (CH4), substância muito mais nociva ao meio ambiente se comparado ao CO2. O óxido nitroso (N2O), encontrado em alguns tipos de fertilizantes, também ajuda a contribuir para o aumento do efeito estufa e possui uma equivalência 300 vezes superior em relação ao CO2.
Pinto observa que o grande produtor já sabe o que deve ou não fazer para produzir mais e degradar menos o meio ambiente. Já o pequeno produtor, que não tem grande acesso às novas tecnologias, tem baixa produtividade e um elevado passivo ambiental. Segundo ele, é necessário que haja mais investimentos nas pequenas propriedades para que se tornem mais competitivas e causem menos impacto sobre o meio ambiente.

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