Apostando no 'poder' dos inimigos naturais
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sexta-feira, 16 de maio de 2014
Ricardo Maia<br>Reportagem Local 
Controlar pragas e doenças em lavouras de soja e milho tem exigido um esforço grande de produtores, indústrias de defensivos químicos e também de órgãos de pesquisas nas últimas safras. Contudo, nem todos sabem que a natureza conspira a favor do agricultor. O uso de inimigos naturais nas lavouras tem sido uma ferramenta importante na luta contra as grandes infestações, como ocorreu recentemente com as Helicoverpas. Chamado de controle biológico, o sistema consiste na introdução de um determinado organismo vivo que combate insetos ou outras moléstias indesejáveis.
Resumidamente, existem dois sistemas de controle biológico: o controle de pragas com insetos e os entomopatógenos, constituídos de fungos, bactérias e vírus que são nocivos às pragas. O primeiro tem ganhado destaque nas últimas safras, com a chegada de novas espécies nocivas, a exemplo da Helicoverpa armigera. Adeney de Freitas Bueno, pesquisador da Embrapa Soja e especialista na área de parasitoides em soja, afirma que as larvas dos insetos predadores parasitam os ovos das lagartas. "Nesse processo, a vantagem é que o produtor controla a praga em uma fase de desenvolvimento em que ela (lagarta) não causa danos à planta", salienta.
Bueno lembra que no passado houve outros experimentos com vespas voltadas para o controle de percevejos, que foram deixados de lado com o surgimento de novas pragas que elas não controlavam. O uso do parasitoide Trichogramma pretiosum, voltado para o controle de lagartas, principalmente as Helicoverpas, tem ganhado destaque depois do aumento da população destas nas lavouras.
O especialista lembra que o controle biológico é mais uma ferramenta na erradicação de pragas, o que não dispensa o uso de outras tecnologias que corroboram para a eliminação dos insetos invasores. Um dos gargalos que dificulta o uso de parasitoides no combate às pragas é o transporte. Por se tratar de um organismo vivo, o fornecimento da matéria-prima requer uma série de cuidados, já que poucas empresas no Brasil possuem tecnologias adequadas para realizar esse tipo de trabalho.
Segundo o especialista, as biofábricas que possuem tecnologias para realizar esse tipo de trabalho precisam ser mais espalhadas, já que estão muito concentradas em São Paulo e no Centro-Oeste do País. Até chegar ao Paraná, por exemplo, ou em localidades mais distantes, a logística encarece, além do aumento dos riscos de mortalidade dos insetos.
Bueno aponta que outro gargalo que emperra o bom desenvolvimento do sistema de controle biológico é que ele necessita de um número maior de mão de obra se comparado ao controle químico. "Precisamos de tecnologias que visam produzir vespas de forma mais barata, além de investimentos no fornecimento aos produtores de pacotes tecnológicos", completa o pesquisador da Embrapa Soja. Ele destaca que há interessados no sistema de controle de pragas com parasitoides, mas faltam incentivos para que os projetos sejam concretizados.
Bueno revela que, como não existe patente para controle biológico, por se tratar de um elemento já contido na natureza, muitas empresas não se interessam por esse sistema de controle de pragas. Contudo, ele salienta que o Brasil vive um novo auge em relação à adoção do controle biológico, já que muitos produtores descobriram que o sistema traz bons resultados no controle de pragas.
Parceiros
Investir em controle biológico não quer dizer que o produtor descartará os defensivos químicos. O pesquisador da Embrapa Soja comenta que é possível e necessário aliar as duas tecnologias. "Não tem controle biológico para todas as pragas e doenças, mas defensivos sim", justifica Bueno. Para reduzir a aplicação desnecessária de produtos químicos, o pesquisador recomenda aliar as duas técnicas, usando-as somente quando necessárias.
No caso dos defensivos químicos, Bueno recomenda que os agricultores sempre utilizem produtos seletivos para não comprometer a biodiversidade de sua lavoura. Quando são utilizados produtos sem essa característica, pode ocorrer a eliminação dos inimigos naturais, ocasionando um desequilíbrio ambiental.
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