Apelo difícil de atender
Jota Oliveira
Em muitas oportunidades ao longo dos últimos quase quarenta anos (desde a revolução de 64, no mínimo), lideranças da produção rural cobraram das chamadas autoridades responsáveis o esforço sem recompensa para sustentar outros setores da economia, como a indústria, e o compromisso social, de sucessivos governos que fizeram do combate à pobreza e à fome uma bandeira.
Para que o povo tenha mais acesso à alimentação, mantém-se baixo o preço da carne de frango, por exemplo. Agora volta-se para o trigo: É uma vergonha um país do tamanho do Brasil, com todas as condições que possui, ainda ser importador de trigo. Não seria apenas uma vergonha, mas um risco sério de desabastecimento. Agora de pouco adianta autoridades apelarem aos agricultores para que plantem mais trigo. Eles nem gostaram do novo preço mínimo, como já se manifestou, entre outros, o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná, Ágide Meneguette.
Já não se muda intenção de plantio daqui para o inverno e o que se prevê é nova redução da área tritícola do País, assim como a continuidade das importações cresccentes de arroz e milho, além do trigo. O Brasil torna-se, este ano, o maior importador mundial de trigo, pois vai receber de fora 7,4 milhões de toneladas, enquanto comprará no Exterior 1,8 milhão de toneladas de milho e 1,3 milhão de toneladas de arroz.
Segunda-feira, dia 17, em comentário distribuído pela Assessoria de Imprensa do Governo paranaense, o engenheiro-agrônomo Otmar Hubner, que acompanha o assunto trigo para o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, constatava: Pelo segundo ano consecutivo a área paranaense de trigo será amenor que a safrinha de milho.
O Paraná é o maior produtor nacional de trigo. O Estado, portanto, conheça trigo, tem condições de obter altas produtividades, possui máquinas e implementos, e boas sementes, mesmo assim tem se retraído. Falta apoio à triticultura. Por isso Hubner prevê que plantar menos trigo do que safrinha de milho é cenário que deverá se manter nos próximos anos.
Além disso, observa o agrônomo que significativa parcela dos agricultores está preferindo o cultivo do milho na safrinha, ao da época normal, quando dão preferência à soja. O agricultor mostra que prefere ele mesmo escolher o que plantar e nessa escolha, para diminuir eventuais prejuízos no inverno, tem optado pelo milho, cultura de menor risco por ser menos dispendiosa e também porque essa gramínea produz, bem ou mal, em qualquer época.
Além disso, analisa o técnico do Deral, o cultivo do trigo não tem recebido estímulo, devido aos preços pouco satisfatórios, à sua baixa liquidez, ao alto custo de produção e ao maior risco climático. Esta situação acrescenta leva os produtores a buscarem outras opções de plantio, destacando-se o milho safrinha.
Por último, Otmar Hubner lembra que o preço atual do milho, próximo ao do
trigo, é desestimulante. Quando o Estado comprava o trigo, eram necessárias mais de duas sacas de milho para comprar uma de trigo. Resumindo: desconfiado de que alguma coisa ruim pode acontecer ao longo de uma safra, o lavrador não desiste de plantar, mas procura uma opção menos arriscada ou que, no pior dos casos, dê menos prejuízo. E para mudar o que o lavrador decidiu, não adiantam apelos ao patriotismo de quem planta; é preciso oferecer também garantias.
O autor é editor da Folha Rural.





