Desde 1993, a Embrapa Soja vem investindo em biotecnologia, uma área de conhecimento com muitas definições encontráveis na internet e nos dicionários, mas que pode ser resumida da seguinte forma: ciência que trata da aplicação de organismos e células na indústria ou na agricultura para obtenção de bens e serviços. A biotecnologia está revolucionando o agronegócio brasileiro e a Embrapa Soja é uma das instituições que contribuem para isso.
Especialista na área, o pesquisador Alexandre Nepomuceno lembra que o primeiro laboratório de biotecnologia foi instalado na unidade de Londrina em 1997. Membro titular da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) desde 2001, ele conta que, de lá para cá, muito conhecimento foi produzido nesta área. Um dos primeiros produtos deste esforço foi apresentado aos produtores, em dezembro do ano passado, com a autorização para uso comercial da primeira semente transgênica completamente desenvolvida do Brasil. É a soja Cultivance, uma parceria entre a Basf e equipes de pesquisadores da Embrapa.
A Embrapa Soja utiliza a biotecnologia como ferramenta em vários de seus processos de pesquisa, visando o desenvolvimento de variedades mais produtivas e adaptadas aos estresses do ambiente. Hoje, são utilizados basicamente dois métodos: o do melhoramento tradicional e o de melhoramento assistido por técnicas como a dos marcadores moleculares.
No primeiro caso, exemplifica o pesquisador, os cruzamentos são ''naturais'': o pólen de uma planta pouco produtiva, mas resistente a uma determinada praga, é inserido no óvulo de outra bastante produtiva, porém suscetível a esta praga. A planta que nasce desse cruzamento terá suas sementes plantadas em laboratório e dará origem a outras tantas. Todas elas serão submetidas ao agente causador do problema. E só após esse processo vai se conhecer quais foram melhoradas geneticamente.
Com o uso de técnicas como o dos marcadores moleculares, o processo ganha agilidade com a aceleração de várias etapas. Por este método, o pesquisador estuda o DNA da planta e identifica os marcadores relacionados com diversas características. Por exemplo, a resistência à determinada doença. ''Então, não precisamos plantar um monte de sementes para ver qual a planta que sobrevive a determinado fungo'', ressalta Nepomuceno.
A equipe de biotecnologia é composta por quatro pesquisadores com doutorado, além de quatro técnicos de apoio. ''Por meio da biotecnologia, a Embrapa vem acumulando um enorme conhecimento sobre as plantas. Estamos entendendo melhor o comportamento delas, como os insetos atacam a soja, descobrindo quais as variedades são sensíveis e as que são tolerantes a estresses como temperatura alta, alagamento e seca'', revela o pesquisador.
Um estudo já adiantado, mas que ainda não tem data para se tornar produto disponível no mercado, é o referente ao gene Dreb (Dehydration Responsive Element Binding Protein ou Proteína de Resposta à Desidratação Celular). Este gene foi patenteado pela Japan International Research Center for Agricultural Sciences (Jircas) - instituto de pesquisa vinculado ao governo japonês. Numa parceria com a Embrapa Soja, os pesquisadores tentam produzir a soja resistente à seca.
A chuva, que não deu trégua no início do ano, pode ter prejudicado o primeiro experimento de campo da soja Dreb, colhido no mês passado nas dependências da Embrapa Soja. Embora a empresa conte com coberturas móveis no campo que protegem a plantação na hora da chuva, o excesso de água pode ter comprometido o resultado do trabalho. ''Ainda não temos essa avaliação'', alega o pesquisador. Ele lembra que o aquecimento global é outro fator que aponta para a necessidade de seleção de uma soja mais tolerante à seca e ao calor.
Outro projeto em andamento, que envolve o desenvolvimento de plantas geneticamente modificadas ou transgênicas, é feito em parceria com a Monsanto. Trata-se da produção de uma soja resistente a herbicida (glifosato) e também a insetos. Os pesquisadores da Embrapa Soja trabalham a partir dos genes Bt (Bacillus thuringiensis) e RR2 (Roundup Ready), pertencentes à Monsanto. ''Temos o maior programa de melhoramento clássico de soja tropical. Eles nos repassaram uma planta já com esses genes e nós estamos trabalhando a partir daí'', revela.

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