Antraz, uma zoonose que ganha destaque internacional
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sexta-feira, 19 de outubro de 2001
Carolina Avansini<br> De Londrina 
A bactéria antraz está em evidência no noticiário mundial por causa de sua suposta utilização em ataques bioterroristas. Em sua forma natural, porém, o micro-organismo afeta principalmente ovinos e bovinos, embora possa contaminar qualquer mamífero. Segundo o professor Júlio César de Freitas, da disciplina de doenças infecciosas do curso de medicina veterinária da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a bactéria causa, nos bois, a doença chamada de carbúnculo hemático, que não é comum no Estado do Paraná.
Freitas ressaltou que a patologia não pode ser confundida com o carbúnculo sintomático, que tem nome parecido mas é causado por outro agente. A doença é conhecida por ''manqueira'', mais encontrada no rebanho brasileiro. Os sintomas dessa patologia são inchaço nos membros do animal, dificuldade para andar e até morte súbita. A prevenção é feita através de vacina.
No caso da doença causada pelo antraz, o veterinário Renato Andreotti, da Embrapa Gado de Corte em Campo Grande (MS), explicou que os sintomas são sangramento por orifícios, febre e morte rápida. Trata-se de uma zoonose, ou seja, pode ser transmitida do animal para o homem. Ele garantiu que na natureza, não é fácil o ser humano se contaminar. ''A principal possibilidade seria através do contato profissional com o animal doente ou no ambiente onde o animal se infectou'', analisou. No Brasil, a doença é rara. ''Há citação de casos, mas nunca ocorreram surtos frequentes'', explicou.
Ele também informou que os sintomas da doença são os mesmos causados pela picada de algumas cobras, como por exemplo a jararaca.''Em caso de suspeita, o produtor deve pedir para um veterinário realizar um diagnóstico confirmativo. Se o exame comprovar o carbúnculo hemático, o animal deve ser cremado e enterrado sem ser aberto, para evitar a contaminação do ambiente. As autoridades de saúde pública e animal precisam ser avisadas'', disse.
A Folha Rural apurou que o antraz existe no Brasil há mais de 100 anos. No Sul do País o último registro foi há 50 anos. Nos últimos cinco anos, foram registrados oficialmente 30 casos de mortes de bovinos por antraz no Brasil, a maior parte deles na Região Norte. Os técnicos acreditam que as altas taxas de umidade e elevadas temperaturas são fatores favoráveis ao desenvolvimento da bactéria.
O antraz está presente no solo e se espalha em forma de esporos (quando o bacilo hiberna para enfrentar condições não-favoráveis), que podem ser transmitidos de um organismo para outro por meio de contato físico, pelas vias respiratórias ou digestivas. Nestes dois últimos casos a doença é mais difícil de ser tratada.
O pesquisador Renato Andreotti acredita que o micro-organismo esteja sendo utilizado como arma biológica principalmente porque quando causa infecção, tem evolução rápida. Além disso, a bactéria é fácil de manipular em laboratório. Ele também esclareceu que nos ataques terroristas, os esporos da bactéria (invisíveis a olho nu) são misturados a um pó branco para que possam ser colocados dentro das cartas. Renato informou que apesar do Oriente Médio não possuir rebanho de bovinos, o antraz pode ter sido retirado de ovinos ou caprinos. Outra possibilidade é que a arma biológica tenha sido importada de regiões de fora do Oriente Médio.


