Antes de criar,
conheça o mercado
Michel Tailleffer mostra uma bandeja de escargôs (franceses), preparados sobre torradas
Esta regra vale para todas as novidades. Ela evita que ocorram decepções como no caso do próprio escargô. Já fracassaram, no Paraná, iniciativas para produzir rã, chinchila, coelho, acerola, canola e outras atividades que não se deram bem no clima paranaense ou simplesmente os produtores ficaram com a produção em mãos, sem saber para quem vender e como vender. A última experiência fracassada, com escargô, transformou muitos desses moluscos em isca de peixe.
Escargô pode ser um bom negócio, mas complementar, como acontece na Europa e na Argentina. Fácil de criar, não ocupa muito espaço, mas dá grande despesa (um escargô come cerca de 10 gr de verdura por dia - quando em criação comercial; no mato ele escolhe suas plantas, bem tenras). Não adianta produzir, se não tiver comprador. O primeiro passo para quem deseja produzir escargôs (ou qualquer outro pequeno animal ou lavoura exótica), é fazer uma sondagem de mercado, aconselha o comerciante Michel H. Taillefer, de Londrina. Michel não cria, não vende matrizes, nem importa escargôs, embora trabalhe com importação e exportação. Mas é consumidor desde criança, quando caçava os caracóis para uma tia, na França.
Dorico da SilvaTalheres especiais para comer escargôEle explica que existem os escargôs na Natureza e as criações destinadas ao abate e comercialização; na Europa os bichinhos são vendidos de várias formas - enlatados, embalados já temperados e prontos para o forno. É só escolher nos supermercados europeus e comprar. Segundo Michel H. Tailleffer a espécie preferida, por seu tamanho e sabor, é o escargô de Bourgogne. Outra espécie é a petit gris, mas esta perde longe para a bourgogne, que Michel coletava quando era criança. Era sempre depois de uma chuva, num fim de tarde. Escargô não gosta de chuva, de frio ou de calor (seu habitat ideal tem temperaturas que variam de 10 a 15 graus).
No campo, Michel e outras crianças catavam os caracóis que saíam das tocas depois da chuva. Da grama os caracóis iam para um cesto, do cesto para a cozinha da tia e para o forno. O apreciador de escargôs possui talheres especiais, para se servir da iguaria. Assim, o escargô é servido em prato especial, de inox ou barro, com 12 depressões onde são colocadas as conchas dos moluscos, para elas não sairem do lugar quando o prato é levado à mesa. Para retirar os bichinhos das conchas, é usada uma colher especial, como uma pequena tenaz. Com um garfo também especial, de apenas dois dentes, compridos, o escargô é levado à boca.
DivulgaçãoNa Europa compram-se escargôs embalados, já temperados, prontos para ir ao fornoMas, não é necessário nada disso, se não tem. Pode-se, por exemplo, preparar os animaizinhos sobre torradas, se não tiver as conchas que foram suas casas. Você pode, na Europa, comprar escargô enlatado, cozido. É só tirar, temperar e chegar ao forno para assar, o que demora de 15 a 20 minutos. As latas mais comuns pesam 200 gr. São 125 gr, líquidos, correspondentes a duas dúzias de escargôs. Tire os bichinhos da lata, côe em uma peneira, para tirar a água; pegue um a um e coloque nas conchas. Pode adquirir o tempero já feito. Basta apenas passar manteiga. Tempero: alho picado, salsinha picada bem fina, uma dose de conhaque ou qualquer outra bebida destilada; sal e pimenta a gosto. Misture os ingredientes na manteiga e faça uma masssa homogênea. Com essa massa, recheie a concha, até fechar. Coloque no forno quente. Quando o tempero amanteigado começa a borbulhar, o escargô está pronto para ser servido. De preferência, use aqueles talheres apropriados. No Brasil, quem quiser comer escargôs, pode encontrá-los em poucos restaurantes em São paulo, Rio de janeiro, Brasília e Curitiba, por exemplo.
FracassoLembrando-se do fracasso da criação de escargôs no Paraná, Michel atribui o mau resultado da criação ao desconhecimento dos produtores a respeito do mercado, e até de como preparar os moluscos para o forno. ‘‘O Primeiro erro foi começarem a criar sem ter um esquema de comercialização; em segundo lugar, os criadores nem sabiam comer escargôs, e precisavam saber disso, no mínimo para ensinar a eventuais interessados. Pior: alguns criadores, como chegaram a falar para a Folha Rural, tinham até nojo de comer. Assim, não há criação que dê certo.’’
O primeiro passo, reitera Michel, é programar a comercialização do produto. ‘‘Se não for assim, é perda de tempo e dinheiro’’. Ele informa que hoje, na Europa, fazem-se inúmeros pratos à base de escargô, como rizzotto, macarronada, folheados para servir em coquetéis. ‘‘Come-se escargô até com peixe’’. (J.O.)

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