O engenheiro agrônomo Roberto Losito de Carvalho, ex-professor da Escola Superior de Agricultura Luís de Queirós, e hoje consultor em Piracicaba, SP, afirma que o equino estabulado acaba sofrendo danos psíquicos. Obrigado a permanente estabulação nos clubes hípicos, quartéis de Cavalaria, centros de treinamento, jóqueis clubes e haras mal projetados, o cavalo tem um ‘‘péssimo companheiro’’, segundo o especialista - o aborrecimento provocado pela ociosidade. Isto acaba provocando desequilíbrio no comportamento psíquico do animal.
Carvalho observa que as mudanças nas relações entre o homem e o cavalo podem provocar ‘‘graves prejuízos’’ à saúde mental do animal. As mudanças psicológicas ‘‘que podem acometer os cavalos confinados’’, ocorrem principalmente com o aparecimento de vícios. ‘‘Por isto - aconselha Carvalho -, a avaliação da saúde mental deve ser feita diariamente pelo responsável mais direto, através da observação da frequência e da intensidade com que os vícios ocorrem’’.
Os vícios Segundo o ex-professor da Esalq, os principais vícios que podem ter origem nos estábulos, indicadores de distúrbios comportamentais, são: aerofagia (engolir ar), coprofagia (comer fezes), geofagia (comer terra); morder as paredes divisórias ou os cochos; irritabilidade excessiva; birra de urso (movimento pendular do pescoço e da cabeça), má-vontade de trabalhar, ‘‘e eventualmente maior agressividade.’’
Losito aponta a ociosidade e depois a alimentação indevida como os fatores mais importantes que predispõem os animais estabulados aos vícios. ‘‘Indevidamente alimentados, com certeza esses animais terão distúrbios comportamentais’’, adverte o engenheiro agrônomo. Ele esclarece que isto ocorre porque os animais estabulados podem estar em diferentes níveis de treinamento e, portanto, terem exigências nutricionais diversas’’.
Por exemplo: muita comida para os animais que trabalham pouco, ou pouca comida para os que trabalham muito, ‘‘são condições que predispõem ao desconforto, à obesidade e à ocorrência de distúrbios mentais’’. Também os níveis de nutrientes contidos na alimentação devem ser considerados, ‘‘porque os cavalos sob treinamento intenso gastam mais energia do que seus vizinhos que se exercitam menos’’. Carvalho lembra que um cavalo trabalhando em galope curto gasta 10, enquanto em galope alongado ele gasta 40,10 Kcal (calorias) por quilo de peso por hora. ‘‘As exigências protéicas variam muito pouco e por essa razão as rações comerciais para a performance não precisam ter mais do que 12-13% de proteína’’, acrescenta.
Outra diferença notada por Carvalho é a ‘‘perda de eletrólitos pelo suor’’. A variação é muito grande e, não sendo atendida, provoca um ‘‘grande desconforto e consequentemente o aparecimento de vícios, principalmente a coprofagia e a geofagia’’. O agrônomo observa que, quando em liberdade, o cavalo gasta de 13 a 15 horas por dia se alimentando, ‘‘sempre em pequenas porpções’’. Quando estabulado, o tempo que emprega comendo ‘‘é no máximo de 6 horas’’. ‘‘Essa diferença - comenta o agrônomo -, demonstra a influência da estabulação sobre o tempo livre que o cavalo deverá preencher com alguma atividade’’. Para um cavalo consumir um quilo de feno, gasta 30 minutos, e gasta 20 minutos se o feno estiver umedecido. Para comer um quilo de aveia ou milho quebrado, gasta apenas 5 minutos.
Programa nutricional Roberto Losito de Carvalho recomenda que, considerando aquelas informações, o criador estabeleça um programa nutricional que aproxime ao máximo as condições do estabulamento das condições de vida livre com plena liberdade do cavalo. Ele informa que se estuda a introdução de comedouros automáticos com ‘‘timer’’ ajustado para fornecer de 6 a 12 refeições por dia ao cavalo; fenos enriquecidos para atender os animais estabulados que trabalham pouco, ‘‘dispensando assim os concentrados’’; e o oferecimento, ‘‘à vontade’’, de volumosos de baixo valor nutritivo, ‘‘a fim de atender a condição de empacho intestinal e mastigação mais frequente, sempre com objetivo de preencher as horas livres e diminuir a angústia e o aparecimento de vícios.’’
Junto com o programa nutricional, é preciso dar algum divertimento ao cavalo, o que Losito de Carvalho chama de ‘‘programas de distração física’’. Isto é necessário, para preencher o tempo livre do animal e não o tornar ocioso. ‘‘Além das atividades já conhecidas, como o trabalho montado, o trabalho a guia, redondel livre, redondel de salto, trabalho puxado, piquetes de recreação e relaxaamento, deve-se incrementar o contato mais intenso e demorado do tratador com o animal, repetindo a higiene diária (massoterapia) duas a três vezes por dia.’’
Cavalo & homem Losito de Carvalho ressalta que ‘‘o comportamento de todos os homens envolvidos no dia-a-dia dos animais estabulados tem grande importância no comportamento psicológico’’ do animal, ‘‘e seu consequente bem-estar’’. Assim, é importante o tratador passar mais tempo com o animal, pois a companhia humana tornará ‘‘mais suportável a solidão que acomete tantos cavalos confinados’’. O especialista recorda que a agressividade e o medo dos cavalos ‘‘é diretamente proporcional à falta de carinho, à rispidez, à grosseria, à voz alta e aos movimentos violentos que acometem tantos cavalos confinados.’’
Para atingir este bom relacionamento homem-animal, recomenda o especialista, que a preparação da mão-de-obra seja ‘‘contínua, profissional, e todos os tratadores devem saber porque estão executando determinados trabalhos’’. Finalmente, Carvalho recomenda que, na escolha desses profissionais, ‘‘é preciso que transpareça a todo momento que ele gosta realmente de cavalos. Esta é a única característica que não se aprende na escola.’’

mockup