Analista prevê preços melhores
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de janeiro de 1997
Cláudia Barberato 
Arquivo FolhaAbatesRebanho deverá sofrer redução menor; queda prevista de 1 milhão de cabeças
Este deverá ser um ano de preços mais firmes para a arroba do boi, ao contrário do previsto anteriormente. A afirmação é do agrônomo Victor Abou Nehme Filho, da FNP Consultoria & Comércio, empresa de São Paulo que atua no mercado de cotação de preços pecuários.
De acordo com o analista, 1995 e 1996 foram anos de baixa de preços e, 1997 que seria um terceiro ano de baixa, fechando o ciclo pecuário, deverá ser diferente. Durante 1996 a FNP realizou um estudo sobre o ciclo pecuário e constatou que desde 1986 a periodicidade de alta e de baixa tem sido de quatro em quatro anos e não de três em três anos.
Hoje acredita-se, afirma Nehme, que 1997 e 1998 deverão ser anos de recuperação de preços. Em 1996 houve grande abate de matrizes; bem acima do que se imaginava e o rebanho caiu 3,5 milhões de cabeças. Essa queda do número de cabeças, de acordo com Nehme, vinha desde 1995, com redução de 1 milhão de cabeças. A previsão para 1997, na sua opinião, é de redução também por volta de 1 milhão de cabeças.
Como a redução do rebanho brasileiro no ano passado foi feita basicamente com abate de fêmeas, a expectativa é de que a safra de bezerros deverá ser menor este ano. O preço do bezerro sobreano, cotado no mesmo período do ano passado a R$ 110,00 já está sendo ofertado por R$ 150/160,00, com alta de mais de 40%, fruto da escassez de matrizes.
Arroba sobeJá para o preço da arroba a perspectiva parece melhor. A cotação em dólares, afirma Nehme, deverá ficar 5% maior do que no ano passado. Por enquanto, em janeiro, os preços continuam os mesmos dos que eram praticados no começo de 1996, por volta dos R$ 22,50.
Nesta fase de recuperação e alta, afirma Nehme, a cria e o investimento em fêmeas deverão ser melhor negócio. A recria deve perder um pouco do brilho adquirido em 1996 e ficar menos rentável do que a cria.
Para as exportações, que não cresceram muito em 1996, o analista acredita que os números devem se repetir, ficando entre 270/280 mil toneladas. O desempenho no crescimento, em 1996, foi afetado, principalmente pela crise da vaca louca na Europa e não devido a problemas internos.
A rentabilidade da pecuária piorou muito em 1996 e muita gente está abandonando a atividade, acredita o consultor. Os pequenos pecuaristas, por exemplo, têm tido dificuldade de se manter no mercado. Para a pecuária praticada com pequenas margens de lucratividade, há dependência de economia de escala e nem todo o criador consegue se manter na atividade. Além disso, sobram cada vez menos o que os especialistas chamam de alienígenas do processo, aquelas pessoas que tratavam a pecuária como investimento, e especulavam no negócio.
Consumo e produtividadeO presidente do Sindicato Nacional dos Pecuaristas de Gado de Corte, Antenor de Amorim Nogueira, garante que em 1997 a entidade continuará trabalhando para promover aumento de consumo da carne bovina e produtividades maiores na produção, para compensar perdas dos anos anteriores.
Um dos eventos programados deverá ser um congresso nacional de pecuaristas, reunindo de 1.500 a 2 mil pessoas, em Goiânia (GO), no mês de maio. Do evento deverá sair um documento destinado ao Governo Federal, pedindo, entre outras reivindicações, a equiparação de alíquotas de impostos da carne produzida pelos países integrantes do Mercosul; além de discussões sobre sanidade animal.
Hoje um dos problemas dos pecuaristas brasileiros, de acordo com Nogueira, é a concorrência da carne produzida nos países onde os promotores de crescimento (anabolizantes) são utilizados para engorda de bois, como na Argentina e nos Estados Unidos. A carne destes países acaba tendo custo menor de produção do que a brasileira. Ou se permite o uso destes promotores de crescimento no Brasil, ou se impede a importação da carne daqueles países.
Incentivar consumoDe acordo com Nogueira, em 1996 houve muita matança de fêmeas e isso deverá influir na oferta de boi magro e bezerros em 1997, com tendência a reduzir a lucratividade da engorda. No mercado ele não vislumbra muita reação nos preços da carne. A tendência de preços não deverá fugir do que foi praticado em 96. O Sindipec pretende fazer campanhas de marketing para aumento de consumo da carne bovina, destacando as qualidades da carne vermelha frente a outras opções de proteína animal.
Mesmo com as dificuldades de mercado o presidente da entidade afirma que os pecuaristas continuam investindo em produção e produtividade. Segundo Nogueira isto se mostra a cada ano quando diminui a entressafra do boi.
A pecuária nacional vem sofrendo mutação rápida. Antigamente, na safra havia oferta excessiva de boi e, na entressafra, oferta reduzida ou até falta de carne. Com os confinamentos e semiconfinamentos, melhoria de pastagem e rotação de pastos, o pecuarista foi suprindo o problema da falta de carne na entressafra e conseguiu manter a produção do boi gordo também na seca e maior estabilidade de oferta no mercado. A tendência, segundo Nogueira, é que a entressafra vá se diluindo, para equilibrar a oferta de animais também na época de seca.


