O Sindicato Nacional dos Pecuaristas de Gado de Corte (Sindipec) defende a revogação da Portaria 5.191, do Ministério da Agricultura, que há seis anos proibe o uso de hormônios na engorda do rebanho brasileiro de corte. O presidente do sindicato, Antenor Nogueira, disse recentemente à Folha de Londrina que, devido à proibição, o Brasil está se transformando de exportador em importador de carne. No começo deste mês, em São Paulo, o Ministro da Agricultura, Manejo e Pesca da Holanda, Jozias van Aartsen, afirmou à imprensa, em São Paulo, que a União Européia é contra o uso de anabolizantes na engorda de gado.
Na opinião do Ministro holandês, deverão ser mantidas as restrições à entrada, no mercado europeu, de carne de bovinos preparados com anabolizantes. A União Européia compra de 60% a 70% da carne bovina exportada pelo Brasil, e será presidida pela Holanda a partir do ano que vem. Segundo Jozias van Aartsen, a União Européia ‘‘é radicalmente contra’’ o uso de hormônios, e é por isto que compra carne produzida no Brasil, onde não é permitido o uso de anabolizantes. Assim o Ministro holandês desaconselha a utilização desses promotores de crescimento no Brasil. Esta também é a opinião do Governo brasileiro.
Pesquisa Eduardo Simões, pesquisador da Área de Produção Animal da Embrapa/Gado de Corte (Campo Grande, MS), explica, a respeito das discussões sobre a liberação do uso de ‘‘promotores de crescimento’’ que, sendo um órgão governamental, e como o uso de anabolizantes é proibido no País, a posição da empresa oficial de pesquisa é em princípio contra o emprego desses produtos.
Além disso, Simões pondera que se deve analisar com muito critério a questão, porque a União Européia é importante compradora de carne bovina brasileira e não aceita carne com anabolizante de qualquer tipo. De outro lado, recorda, existem trabalhos científicos, inclusive desenvolvidos no Brasil, segundo os quais alguns anabolizantes não devem ser utilizados, mas outros não são perigosos para a saúde do homem.
‘‘Em vista da posição da União Européia, temos que pensar duas vezes quando discutimos o assunto. Existem hormônios naturais, xenobióticos, com base em plantas, que não são nocivos. Como o zeranol, derivado do milho, que já foi usado no Brasil e é empregado na Austrália.’’
Nos Estados Unidos e na Austrália são usados promotores de crescimento. Mas quanto ao Brasil, além da oposição européia à liberação dos anabolizantes, Simões tem outra preocupação: como controlar o uso desses produtos, se fôssem liberados alguns deles? Aqui se abate gado a marreta, no pasto, sem nenhuma fiscalização. O abate clandestino é mais fácil de ser reprimido, porém mesmo assim é alto.
No 24º Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária, realizado em Goiânia, foi aprovada recomendação para a liberação de promotores de crescimento na pecuária brasileira. De acordo com o documento, endereçado ao Ministro da Agriculutra, Arlindo Porto, pela presidente da comissão organizadora do congresso, Zélia Aparecida Batista Soares, ‘‘não existe fundamentação técnico-científica para a proibição de promotores, que são usados hoje em dia em países como os Estados snidos, Austrália, Nova Zelândia e Argentina’’.
Nos Estados Unidos não existem mais períodos de carência para anabolizantes considerados seguros. Estão liberados naquele país cinco tipos de anabolizantes: três hormônios naturais - 17 beta estradiol, testosterona e progesterona - e dois sintéticos: zeranol e acetato de trembolona. Estes produtos não são mais controlados porque em 27 anos de monitoramento nunca se chegou perto de níveis que pudessem causar algum dano à saúde animal ou humana.
Bom ou ruim Na opinião do veterinário Ricardo Cauduro, de Londrina, a pecuária brasileira perde por não utilizar anabolizantes. Em primeiro lugar, afirma, perde mercado ao contrário da Argentina, ‘‘que está abrindo novos mercados’’ embora use anabolizantes. E enquanto os anabolizantes são proibidos no Brasil, aqui se consome carne anabolizada procedente da Argentina. Segundo Cauduro, com a estabilização da moeda brasileleira; com a possível recuperação do poder aquisitivo da população em geral e se o consumo per capita, dos brasileiros, aumentar apenas 2 quilos de carne por ano, o Brasil passaria de exportador para importador.
É o que esperam os argentinos, que vêm se preparando para suprir o mercado brasileiro. ‘‘Este é um assunto corrente na Argentina, que não tem mais outro mercado’’, diz Cauduro. Os argentinos esperam que o poder de compra dos brasileiros aumente naquela proporção dentro de dois anos. ‘‘Com anabolizantes, seria possível nos mantermos pelo menos como auto-suficientes na produção de carne’’, argumenta o veterinário.
Ele informa que o resultado do trabalho com anabolizantes na Argentina e no Paraguai é um ganho-de-peso de 10 a 20% em relação aos animais que não recebem hormônios. Essa melhora de peso acontece, explica, ‘‘devido à melhor conversão alimentar’’ dos animais. ‘‘Melhora ainda o padrão da carne, que terá menos gordura e, por ser de um animal mais jovem, terá carne mais macia’’.
Enquanto isto, observa Ricardo Cauduro, substâncias ‘‘que já foram banidas do mundo’’ são contrabandeadas e estão sendo usadas no Brasil, pois não existe fiscalização’’. Ele é a favor da liberação com fiscalização, ‘‘para que com certeza haja segurança para o produtor, para o consumidor e para as exportações.’’
Existe no Brasil o mercado clandestino mas, ressalta Cauduro, não se sabe o que está sendo aplicado. ‘‘Tem muita gente que aplica gesso que comprou como sendo hormônio promotor de crescimento (anabolizante). Se fôr apenas gesso,s só dá ganho para os contrabandistas. Se fôr outra substância, pode contaminar os animais’’, comenta.
Nos Estados Unidos, que possuem rebanho de 110 milhões de cabeças, são vendidos 80 milhões de doses de anabolizantes por ano. No Brasil estima-se mercado, a partir da liberação desses produtos, de 35 milhões a 40 milhões de doses. Podem ser usadas várias doses por animal. Segundo Cauduro, estes produtos são usados no mundo inteiro, inclusive na Nova Zelândia e na Austrália, dois grandes produtores de carne. Estes países exportam para a Europa, mediante contratos pelos quais os pecuaristas assumem o compromisso de não exportar carne de animais tratados com anabolizantes. ‘‘É isto qwue o Brasil precisa fazer também. O produtor assina um termo, afirmando que não usou anabolizante, como se faz na Argentina. O boi será analisado e se fôr constatado o uso de hormônio, o produtor será punido’’, sugere o veterinário. As exportações brasileiras de carne bovina giram em torno de 300 mil toneladas por ano.
Se, para o presidente do Sindipec, Antenor Nogueira, a argumentação em favor da liberação dos promotores de crescimento é de ordem econômica, para os participantes do Congresso Brasileiro de Veterinária ‘‘não existe qualquer fundamento científico na tese de que tais promotores, no uso em gado, são prejudiciais para a saúde dos consumidores de carne.’’

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