Ameaça ao ''boi de capim'' - José Luís Porto
OPINIÃO
Ameaça ao boi de capim
José Luís PortoMesmo sofrendo toda sorte de retaliações dos países desenvolvidos, as exportações brasileiras de carne bovina, de frango e de suínos representam para o Brasil negócios da ordem de US$2 bilhões por ano. Essa cifra pode perfeitamente dobrar, devido ao enorme potencial da pecuária no País, dono das maiores reservas do Planeta de biomassa e de água potável.
Essa importante conquista da cadeia produtiva da carne (pecuaristas, técnicos, frigoríficos, exportadores) está correndo sério perigo. O motivo é uma recente portaria, do Ministério da Agricultura, que liberou o uso do fosfato de rocha como fonte de fósforo na alimentação animal em substituição ao fosfato bicálcico, sob o pretexto de fazer com que os criadores economizem dinheiro na mineraliização de seus rebanhos.
A estimativa divulgada é de R$800 milhões por ano. Esse valor é inteiramente desproporcional aos números reais apresentados pelo setor, consdiderando que o mercado brasileiro de suplementos minerais fabricados com fosfato bicálcico de qualidade alimentar (feed grade) é muito menor, situando-se em torno de R$500 milhões.
Quando se fala em unidade de fósforo e a sua biodisponibilidade para os animais, a economia defendida pela portaria do Ministério da Agricultura em benefício dos criadores fica ainda mais longe da realidade. A absorção, pelos animais, do fósforo do fosfato bicálcico é muito maior, chegando a 80% das quantidades consumidas desse elemento.
Em contrapartida, a absorção do fósforo do fosfato de rocha atinge a apenas 15%. O restante passa direto pelo sistema digestivo dos animais e é eliminado pelas fezes e urina. Em outras palavras, o em termos de biodisponibilidade de fósforo, o mineral mais importante para o aumento da produtividade.
Existe um outro agravante do fosfato de rocha. É que ele contém metais pesados em excesso, como o urânio, tório, arsênico e, principalmente, flúor, que contaminam todos os alimentos de origem animal (carne, leite, ovos) consumidos pelas populações.
É nesse ponto que a carne brasileira pode sair bastante prejudicada. Ao saberem que nossa carne vem de animais tratados com um produto suspeito, as autoridades sanitárias das nações desenvolvidas não hesitarão um só momento em proibirem a importação de nossa carne. Serve, por exemplo, o boicote que os franceses fizeram contra a carne da vaca louca inglesa.
O fosfato de rocha é um bom adubo para a terra, mas como componente das misturas minerais ele não serve. Esse é um fato comprovado por cientistas brasileiros e estrangeiros, e legislações de todo o mundo. Nos Estados Unidos e Europa existem normas rígidas contra o uso do fosfato de rocha na alimentação animal, que chegam a taxá-lo de substância venenosa.
Hoje o mundo busca a segurança alimentar, dando total preferência a produtos orgânicos, naturais, sem nenhum agente tóxico ou contaminantes. A carne do nosso boi verdecai como uma luva nesse conceito. É a sua maior grife. A portaria pró-fosfato de rocha simplesmente derruba esse up grade mercadológico que recebemos de graça da natureza.
Se o fosfato de rocha fosse realmente bom para os animais, para que se investiria tanto dinheiro em plantas industriais, em pesquisas científicas, para produzir o fosfato bicálcico alimentar? Não seria muito mais fácil moer a rocha fosfática e vendê-la como tal para os criadores?
O outro absurdo da portaria (número 6, de 4 de fevereiro último), é que ela quebra uma longa tradição, desobrigando o registro no Ministério da Agricultura da fonte de fósforo na alimentação animal. A portaria vai mais longe ainda, pois libera as mesmas empresas de informarem a fonte de fósforo dos seus produtos nas embalagens.
Logicamente os maiores prejudicados com tudo isso serão os próprios pecuaristas. Além de lhes negar o direito de saberem o que estão comprando, a portaria deixa a porta aberta para que empresas inidôneas cometam todo tipo de falcatruas. Ao invés de ajudar a moralizar o setor, a portaria representa um retrocesso de cinquenta anos.
Supondo que o fosfato de rocha passe a ser usado, não vai demorar muito para os animais começarem a apresentar sintomas de intoxicação com flúor e suas sequelas, como perda de dentes, quebra de ossos, baixa fertilidade, perda de peso, dificuldade de locomoção e morte, fatos como esses relatados por pesquisas mundiais e brasileiras.
Para não prejudicar o trabalho de gerações inteiras de pecuaristas, que deram para o Brasil uma pecuária que está se tornando digna de admiração, o Ministério da Agricultura, cuja folha de serviços não fica atrás, precisa rever sua portaria com urgência. Caso contrário, poderá semear o cáos na pecuária brasileira.
O autor, especialista em nutrição animal, é médico-veterinário no Paraná.





