Alternativa para evitar extinção
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sexta-feira, 22 de agosto de 1997
Silvana Leão 
Dorico da SilvaIraci Toledo com as mudas de pupunha: cultura tem demonstrado bons resultados no EstadoOs consumidores de algumas regiões do País já podem comprar palmito sem medo de ter surpresas desagradáveis ao abrir a lata. A pupunha (Bactris gasipaes), palmeira nativa da região tropical das Américas, vem sendo cultivada em vários Estados brasileiros e fornece um produto de qualidade superior, extremamente macio e de sabor adocicado, envasado, por enquanto, por poucas indústrias brasileiras. Por suas características de cultivo, porém, a tendência é que este palmito ganhe cada vez mais espaço nas prateleiras dos supermercados, onde até pouco tempo atrás só eram encontradas espécies tradicionais, como açaí e juçara.
Descoberta em 1974, a pupunha diferencia-se pelo poder de regeneração permanente, através do perfilhamento (produção de mudas ao redor da planta-mãe), e pela precocidade. Enquanto o juçara, nativo do Paraná, começa a produzir no oitavo ano, a pupunha inicia a produção com três anos de cultivo, podendo, em alguns casos, ser abatida já aos 18 meses. A capacidade de emitir constantemente novos brotos, que permitem a colheita anual na mesma planta, o transforma em boa alternativa comercial e diminui os riscos de extinção das espécies até então exploradas.
Mas as vantagens do plantio da pupunha para obtenção de palmito não param por aí. O rendimento é outra característica que atrai: de 200 a 700 gramas do produto por tronco. Em média, o juçara produz 500 gramas, e o açaí entre 180 e 200 gramas. Além disso, a pupunha é menos perecível que outros tipos de palmito, podendo ser vendida in natura em feiras e supermercados, sem o risco de escurecer. No caso do juçara, por exemplo, o processamento deve ser imediatamente após o corte, pois ele escurece muito rápido.
Arquivo pessoalA capacidade de perfilhamento (produção de novas mudas) é uma das vantagens apresentadas pela pupunha
Sem espinhosA maioria das variedades nativas de pupunha possuem grande quantidade de espinhos nas folhas e no tronco, o que dificulta o plantio e a colheita. Atualmente as mais procuradas têm sido a de Yurimaguas (Peru), e a de Benjamin Constant (Brasil). A peruana é superior em termos de ausência de espinhos (apenas 5% das plantas originárias dessa população nativa têm espinhos) e precocidade. Porém, as sementes das duas variedades podem ser utilizadas, desde que colhidas de plantas selecionadas.
Rica em vitamina A, a pupunha pode ser consorciada com outras plantas frutíferas ou culturas anuais mais baixas. As lavouras comportam de 5 a 6 mil plantas por hectare, com espaçamento de 2x1 e uma produção de 1,5 tonelada/ha. Os cortes são anuais e a produtividade das colheitas seguintes cai para 1,2 t/ha.
A pesquisa recomenda que a colheita do palmito seja sempre escalonada, pelo próprio desenvolvimento irregular das plantas. Na Costa Rica, onde a produção é mais precoce devido, principalmente, a clima e solo, inicia-se a colheita aos 13 meses. Nesta época colhe-se apenas 1% das plantas, aproximadamente. Um mês após essa primeira colheita faz-se um novo repasse na área, colhendo-se cerca de 3% das plantas.
Aos 15 meses a produção aumenta, e a colheita vai sendo feita até que, 18 meses após o plantio, todos os palmitos tenham sido retirados. No Brasil, a colheita inicial é feita por volta de 18 meses, terminando o primeiro ciclo após 2 a 3 anos de plantio, dependendo do clima, solo, adubação e tratos culturais adotados.
Boa produçãoSegundo a pesquisadora Nancy Morsbach, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) em Curitiba, no Brasil já existem cerca de cinco mil hectares de pupunha em produção. Os maiores produtores são os Estados do Amazonas, Acre, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Outros como Pernambuco, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina também produzem, mas em proporções menores.
Ela afirma que o Paraná, diferente dos outros Estados da Federação, possui uma área de plantio ainda restrita devido, entre outros fatores, à falta de normatização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Ambiental do Paraná (IAP) para o corte.
O Iapar faz pesquisa com pupunha há mais de sete anos. Começou em Morretes e estendeu a pesquisa por todo o Litoral (região preferencial de cultivo, devido ao clima semelhante ao da região amazônica), onde a adaptação e produtividade são excelentes. O Iapar também desenvolve testes, junto com a Emater, nas margens do Rio Ribeira, em Cerro Azul e Adrianópolis. No Noroeste do Estado, onde existem campos experimentais, estima-se que já tenham cerca de 20 hectares plantados, com ótimos resultados, diz a pesquisadora.
Quanto à rentabilidade do palmito, o Iapar calcula que, com a possibilidade de corte de 2 mil plantas/ha/ano (3.300 plantas/ha), e o preço de R$ 1,50, é possível obter um ganho de R$ 3.000/ha/ano. Esse valor pagaria o investimento inicial e permitiria rendimento líquido de mais ou menos R$ 2.000,00 por ha/ano nas safras subsequentes.
O Paraná não possui ainda plantios de pupunha para a produção de sementes, mas já existem alguns viveiristas comercializando as mudas. Em Londrina, o casal Carlos e Iraci Toledo vende mudas há cerca de dois anos, além de plantar três hectares (cerca de nove mil mudas) em Rondônia, atualmente em início de corte. Em uma chácara próxima da área central da cidade, eles têm disponíveis 30 mil mudas de pupunha e aproximadamente 150 mil mudas de palmeira real (ver box), que vendem por R$ 0,80 e R$ 0,50, respectivamente.


