Fotos cedidas por OzawaFarturaRio Rondon, em Centenário do Sul, completamente tomado por tangolaPara contrabalançar a escassez de forrageiras na época do frio, quando o gado emagrece e pode morrer, os pecuaristas devem procurar alternativas alimentares de menor custo. As plantas aquáticas são uma delas, segundo o fazendeiro Yasuyoshi Ozawa, de Londrina, que possui fazenda de gado em Centenário do Sul e vem observando o comportamento das plantas aquáticas quando utilizadas para forragem.
Em sua propriedade, a Fazenda Manacá, em Centenário do Sul, ele observava, curioso, que as plantas aquáticas do Rio Rondon continuavam verdes mesmo nas mais baixas temperaturas das região, no Vale do Rio Paranapanema, Norte do Paraná. Pensou que algumas dessas plantas poderiam ter índices adequados de propriedades capazes de alimentar o gado quando escasseasse a pastagem e fôsse preciso compensar com ração industrial a falta de capim. Depois, ‘‘navegando’’ pela Internet, descobriu que outros países faziam pesquisas a respeito do assunto, e começou a estudar essa alternativa. Já fez algumas experiências e constatou que estava certo: existe abundância de plantas aquáticas nutritivas e que agradam ao paladar dos bovinos.
O tangola, três dias depois de ser jogado na água, está verde e começa a se espalhar
Colchão de escravosOzawa comparou o preço máximo ( RS$ 24,50) da arroba do boi, na entressafra passada, com o preço mínimo (RS$ 21,00) e concluiu: com uma diferença de 14% entre máximo e mínimo, não se justificava usar ração cara para alimentar o gado no inverno. ‘‘Temos que preparar alternativa mais econômica, sem prejuízo da qualidade’’, pensou.
A solução, constatara, estava ali mesmo no rio que banha sua fazenda; estava também nas margens do Paranapanema, em rios e riachos de todo o Norte do Paraná: as plantas aquáticas, que são verdes e nutritivas o ano inteiro.
Já se tentou dar aguapé ao gado, mas esta experiência fracassou ‘‘devido à má-palatabilidade’’ da planta. Ao contrário - acrescenta -, o capim aquático conhecido como bengo, tanner grass, capim fino ou angola ‘‘tem excelente palatabilidade’’. O nome científico desse capim é Brachiaria mutica mas, segundo Ozawa, ‘‘não houve estudo sério, pelo menos aqui na região (Norte do Paraná), sobre seu aproveitamento’’.
O limpador de plantas aquáticas desenvolvido pela CESP apenas afasta as plantas, como os aguapés
Em outros países tropicais e subtropicais, afirma o fazendeiro, dando como fonte a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) esse capim ‘‘é largamente difundido’’. Existem 90 variedades do Brachiaria mutica, segundo a Universidade da Flórida, principal pesquisadora de plantas aquáticas no mundo. No Norte do Paraná existem quatro ou cinco variedades, proliferando na beira dos rios e córregos, ‘‘talvez por gostar de boa oxigenação’’.
Segundo o Dr. Kurt Kismann, pesquisador brasileiro internacionalmente conhecido pelos seus trabalhos nesta área, o angola foi introduzido no Brasil junto com os escravos que fizeram cama com ele nos porões dos navios negreiros. Por isto as regiões infestadas deste capim são a Baixada Fluminense e o Vale do Rio Paraíba do Sul, onde chegaram os primeiros escravos, para trabalhar na cultura de cana.
ProdutividadeComo todas as espécies de brachiaria, o angola é alelopático, e, poucos anos depois do plantio, domina todos os capins concorrentes. No Norte do Paraná é conhecido como bengo, e no resto do País como angola ou angolinha. Por isto, presume-se que este capim seja originário do Rio Bengo, em Angola, de onde partiram os barcos carregados de escravos.
O equipamento norte-americano que colhe as plantas.O piloto, na proa, tem boas condições de manobra e visibilidade para fazer a colheita
Durante um verão os talos do bengo crescem cerca de seis metros. A FAO constatou na estação experimental Palmira, na Colômbia, que o gado cruzado de brahman ganhou 600 gramas por dia na área não adubada e obteve 780 gramas diárias de ganho de peso em área adubada por nitrogênio. Na Parada do Estado, em Queensland, Austrália, bois castrados ganharam 960 gramas por dia. ‘‘Na minha experiência na Fazenda Manacá, em Centenário do Sul, os garrotes cruzados ganharam 900 gramas por dia quando foram alimentados com pontas da variedade tangola (cruzamento de angola com tanner grass) que foram cortadas e colhidas por barco e oferecidas na beira do rio. Quando se alimentaram do capim jaraguá, por pastoreio, suplementado com tangola, os animais ganharam 700 gramas diárias, conta Ozawa.
O conteúdo de proteína bruta varia muito, conforme as amostras testadas. De acordo com a análise feita pelo CCA (Centro de Ciências Agrárias) da Universidade de Londrina, tangola com folhas verdes e talos compridos mostrou 11% de proteína bruta. A amostra foi colhida no mês de julho do ano passado, em pleno inverno. Se a amostra fosse constituída apenas de folhas e pontas, deveria ter aspresentado maior teor de proteína.
O capim cresce normalmente nas beiras de rios e córregos, mas pode ser plantado em lagoa bem funda, em cima de aguapés, como se fôsse hidroponia. Ele cresce flutuando e aproveitando o lodo (matéria orgânica) acumulado nas raízes do aguapé. Posteriormente, o bengo domina os aguapés, pelo seu poder alelopático, e forma um verdadeiro tapete flutuante de camada grossa, entrelaçada com suas raízes, o que suporta até o pisoteio de gado, segundo o relatório da FAO.
À primeira vista parece exagero, mas isto é verdade - garante Ozawa. Na desembocadura do Rio Rondon com Rio Paranapanema formaram-se ilhotas ‘‘puramente constituídas de capim tangola, sobre as quais o homem pode andar sem problema.’’
ColheitaPara a colheita, utiliza-se um barco especialmente projetado para nevegação em água densamente coberta por plantas aquáticas. Na proa do barco tem uma ceifadeira, que corta dentro e fora da água. A ceifadeira tem de 2 a 3 metros de largura; sua altura (dentro da água até 1,5 metro de profundidade e fora da água até 45 centímetros) é regulável hidraulicamente. A produção é variável de acordo com o adensamento da planta, mas em princípio a colheitadeira é projetada para cortar 2 alqueires por dia.
A colheita do capim cortado é feita por garfo, adaptável, colocado na frente do mesmo barco, na posição do cortador. O barco é navega nas beiras de rios e lagoas, em profundidades de apenas 25 centímetros, onde o bengo prolifera mais, apesar de se fixar numa profundidade pouco acima de 1,5 metro.
No Brasil, a Companhia Energética de São Paulo (CESP) desenvolveu barcos para limpeza dos lagos de suas repressas, masa está vendendo o equipamento, que só empurra as plantas, não corta. Isto serviria para coletar aguapé, se o gado aceitasse bem esta planta, mas o tangola é uma planta fixa, que precisa ser cortada e para este caso o barco da CESP não serve. Ozawa importou uma colheitadeira simples, dos EUA, e vai fazer em maio sua primeira colheita não-experimental.
Outros capinsExiste outros capins aquáticos com potencial para alimentarem o gado no inverno: Panicum repens -nos Estados Unidos é conhecido como torpedo grass. O conteúdo de proteína bruta dese capim é de 14%, de cordo com a UEL, e muito comum no Norte do Paraná. Ele prolifera até no seco, sendo confundido muitas vezes com a grama estrela, pela sua apresentação, mas as sementes são semelhantes às do colonião, porque pertence à espécie panicum; Panicum hemitumon - nutritivo é desconhecido. É ainda cedo para avaliar sua viabilidade como forragem para o gado; hydrilla, uma alga que nasce no leito do rio e, diz Ozawa, é ‘‘altamente nutritiva em todos os aspectos’’, inclusive protéicos, teores de cálcio, fósforo, minerais e enzimas. Nos Estados Unidos existe um laboratório farmacêutico que comercializa essa alga em forma de pó, comprimido e creme, como suplemento nutritivo, antioxidante, antivelhice precoce, antiartrite e como cosmético. Esta alga é a praga número um dos rios e lagoas dos Estados Unidos. No Brasil ainda não foi avaliada a extensão de sua ocorrência, mas em princípio Ozawa afirma que quase todas as plantas aquáticas que existem na Flórida, existem também no Brasil. ‘‘Se for confirmada sua existência, por que não servirá como alimento do gado a planta que serve para a alimentação humana? Ou será nobre demais para o gado?’’, questiona o fazendeiro.
Entre outras espécies, Ozawa fala ainda da azolla, uma planta que não produz fibra, ‘‘porque não é gramínea’’, mas em matéria de proteína, produz anualmente 24 vezes mais do que a soja. Isto corresponde a 6.000 quilos de grãos, dos quais 15% são proteína. Assim, a soja produz 900 kg de proteína numalqueire, enquanto a azolla produz 22.000 kg/alqueire - 24 vezes mais. Ozawa sugere que se pode exeperimentar essa planta no Brasil ‘‘como mais uma fonte promissora de proteínas em lugar de farelos de algodão, de soja, de arroz ou da cama-de-frango.’’ Trata-se de uma planta flutuante, cujas folhas possuem poros que detêm algas fixadoras de nitrogênio.

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