Altas abusivas de preços
Edison Mazei Ponti
Pode-se admitir o alinhamento de preços, mas dentro de critérios honestos, não do modo abusio como já ocorreu e ainda está sendo feito. Por isto o Sindicato Rural de Londrina está lançando um movimento, para evitar altas exageradas de preços dos insumos agrícolas após o ajuste do câmbio. Está sendo estudada a criação do ‘‘Movimento pelo Real e Justo Alinhamento de Preços’’.
Em vista das remarcações ocorridas nos últimos dias, o setor agrícola tem que pressionar para que o ajuste de preços, quando necessário, seja feito dentro de parâmetros aferidos proporcionalmente ao valor importado; do percentual do componente do produto e do aumento cambial, e não de maneira solta e ao sabor do setor controlador do mercado.
A remarcação dos preços não está se restringindo ao diferencial do câmbio. As indústrias, padarias e outros segmentos, estão aplicando percentuais que vão encarecer absurdamente os custos de produção e aumentando o preço final para o consumidor. Por exemplo, os efeitos do aumento do preço do trigo na Cadeia Produtiva são:
O moinho produz 750 kg de farinha e 250 kg de farelo por tonelada de grão. Na média ponderada a tonelada processada de trigo (R$157,00 por tonelada, valor pago ao agricultor) passa a valer R$266,28, resultando num nível de agregação até esse componente, de 1,70:1, em média, sendo os 750 kg de farinha responsáveis por R$241,28 e os 250 kg de farelo, por R$ 25,00.
A panificadora, com 750 kg de farinha, produz 903,6 kg de pão francês, no valor de R$2.033,00 (12,95:1).
A indústria de biscoitos, com 750 kg de farinha comum, produz em média 833,3 kg de biscoitos, no valor médio de R$2.866,00 (18,25:1).
A indústria de massas, com 750 kg de farinha especial, produz em média 789,50 kg de macarrão, no valor de R$1.594,00 (10,15:1)
O consumidor usa também diretamente a farinha de trigo, pagando em média R$322,00 por 750 kg de farinha (2,05:1).
Saliente-se que, para se obter os valores médios do pão francês, biscoito, macarrão e farinha caseira, utilizaram-se dados do POF-IBGE.
O consumo de trigo, no Brasil, ocorre em sua maior parte para produção de pães. Um aumento de 41% no preço do trigo implicará num aumento nos preços finais de pão francês de apenas 4%. Isto significa que um pão que custa R$ 0,10 passará a custar R$0,104, ou seja, não terá reflexo nenhum. No entanto, estão aumentando para R$0,20 cada pão. Este tipo de análise deverá ser estendido para a cana, a carne, a soja, o arroz, a batata, o café, etc.
Os fornecedores precisam discutir os preços com representantes da agricultura, seu grande cliente. A agricultura não pode ser uma vez mais prejudicada em decorrência da correção cambial e do realinhamento injusto dos preços da cadeia produtiva. Na verdade, os preços dos insumos vinham aumentando durante todo o Plano Real, antes mesmo do Governo mexer no câmbio.
Os defensivos agrícolas brasileiros estão em média 65% mais caros do que os do nosso principal parceiro no Mercosul. Esse fato se deve, principalmente, à proibição da importação de agroquímicos, conforme estabelece o Decreto nº 98.816, de 11.01.90.
Ocorre que a Lei nº 7.802, de 11.07.89, regulamentada pelo Decreto nº 98.816, determina a obrigatoriedade do ‘‘registro do produto’’. Todavia, o referido Decreto faz uma série de exigências, impossíveis de serem cumpridas por importadores independentes, ou seja, não produtores ou manipuladores de agrotóxicos.
Com isso, as empresas do setor se colocam numa posição cômoda de atender às exigências do Decreto, porém ditam o preço, uma vez que não se sentem ameaçadas pela concorrência (veja tabela 1).
A agroindústria moageira exerce uma pressão sobre os preços dos grãos, principalmente do milho, reabaixando os preços mesmo num momento em que a oferta é menor do que a procura e quando os números finais da safra ficarão abaixo da demanda.
A lavoura está sendo duplamente prejudicada: de um lado, pela alta sem controle dos insumos, do outro lado, pela queda dos preços pagos ao produtor.
No caso do milho, a cotação da BM&F do dia 13/01/99 era U$7,63 com o câmbio U$1,24. Em 26/01 foi lançado para U$4,80 e se percebem movimentos para baixar ainda mais.
Segundo Safras & Mercados o milho importado da Argentina, chega ao Brasil a US$8,65 (ao câmbio de R$1,88) ou R$16,26 por saco de 60 kg, e estão pagando até R$7,70 para o agricultor. É menos do que a metade do preço do importado. Assim vão eliminar o seu forncedor de matéria prima.
O trigo, que vem apresentando um preço mínimo de garantia decrescente desde 1995, uma vez que em março de 1995 estava a US$160.71/t, em março de 1996 estava a US$159.1/t, em março de 1997 estava a US$148.25/t, em março de 1998 estava a US$138.08/t, para trigo superior (o de melhor qualidade). Isto vem provocando uma evasão de produtores para outras opções, aumentando as importações do trigo. É muita injustiça, os mais prejudicados serão os mais frágeis da sociedade - os agropecuaristas e os consumidores.
Por outro lado temos o setor automobilístico que recebe um tratamento diferenciado. Por exemplo, um carro no início do Plano Real que custava no mercado R$7 mil, teve sua tabela reajutado para R$12.800,00, um reajuste de 82,86% até o dia 12/01/99. Com o reajuste do dólar aumentaram novamente os preços e os juros de financiamentos dos veículos. O mesmo modelo de carro que no Brasil custa US$39 mil, nos Estados Unidos custa US$13 mil.
Além disso, vemos um verdadeiro jogo de cena das montadoras para reduzir o IPI, utilizando-se dos trabalhadores e da imprensa para convecer a sociedade desta necessidade. Tudo isto, porque tinham do governo uma alíquota de importação de 70% rebaixada agora para 32%. Não é hora de zerar esta alíquota?
A agropecuária está exaurida. Foram transferidos mais de US$10 bilhões do bolso do agricultor e do pecuarista para o setor secundário, terciário e exportações, ao ser a Âncora do Plano Real.
O setor agropecuário não aguenta mais esta sangria. Vamos reaghir porque é uma questão de vida ou morte.
Chegou a hora da verdade, os preços dos produtos, devido a globalização, deverão a médio e longo prazo, se equalizarem.
Os preços dos produtos agrícolas, mesmo os internos, deverão ser compatíveis aos do mercado externo, pos senão eles serão exportados.
A curto prazo o realinhamento dos preços têm que ser reais e justos, porque senão vamos morrer na praia. Isto é preocupante.
A agropecuária se conseguir equilíbrio real e justo dos preços terá uma arrancada muito rápida e criará muito emprego; produzirá os alimentos para a sociedade e para exportação, gerando sueravit em dólares que o Brasil tanto precisa.
O ‘‘Movimento pelo Real e Justo Alinhamento dos Preços’’ pretende alertar os segmentos organizados dos agricultores e consumidores para se mobilizarem em defesa dos seus interesses, porque por serem os mais frágeis da cadeia econômica são so que mais têm sofrido com as mudanças bruscas dos planos econômicos.
A idéia é agir de várias formas: a) mobilizar as entidades representantes e criar um sistema de acompanhamento e discussões dos preços; b) eleger órgãos mediadores, para fixação de preços; c) fazer ampla campanha de esclarecimento; d) recorrer ao CADE e a outros órgãos do Governo; e) obter aval do Governo para importar insumos - mesmo com o câmbio reajustado compensa comprar lá fora, pois os preços internos já estão muito altos a partir desta semana.
O autor é presidente do Sindicato Rural de Londrina.

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