A fusão de grandes empresas, que hoje estão dominando o mercado de insumos agropecuários, está afunilando a concorrência do setor de máquinas, equipamentos, sementes, adubos e outros. Até onde isso poderá chegar? ‘‘A pergunta é difícil de responder’’, afirma a professora do Departamento de Economia e Extensão Rural, da Universidade Federal do Paraná, Vania D’addario Guimarães.
A exemplo do que aconteceu no setor automobilítico e até no caso das bebidas (Ambev), o setor produtivo da agropecuária tem cada vez menos opção de concorrência na oferta de insumos e máquinas. A tendência, que também atingiu o setor varejista, no caso de grandes redes de supermercados, que compram os produtos agrícolas, coloca o produtor cada vez mais numa situação de pouco escolha na hora de comprar insumos e de vender sua produção.
‘‘Esse é um fenômeno mundial’’, alerta Vania. Segundo ela, a concentração de empresas no setor agropecuário no Brasil não é uma novidade, mas ficou acentuada na última década, especialmente depois da estabilidade da economia brasileira. Antes disso, as empresas sobreviviam mais das aplicações no mercado financeiro do que com suas próprias vendas.
Ficou no mercado, depois da estabilidade, quem tinha suporte financeiro. Por isso as pequenas e médias empresas foram ‘‘engolidas’’ pelas multinacionais. A fusão de empresas do setor, avalia Vania, aconteceu como uma questão de sobrevivência das próprias empresas. Ficou difícil concorrer num mercado onde grandes multinacionais investem pesado em tecnologias para produção.
Ao que parece, prevê Vania, esta concentração não deverá atingir a produção agrícola que ainda é um setor que rende menos na cadeia produtiva. Mas os produtores têm alternativas com essa concentração, que se mostra assustadora para muitos, se organizando em associações, fundações ou condomínios, a fim de ganharem poder de barganha, não só na compra de insumos mas também na venda de seus produtos. Outra saída é ampliar a prestação de serviços a terceiros, como no caso de colheita, por exemplo, para quem já tem a máquina.
Alta concentração No setor agrícola um das maiores concentrações está na venda de maquinarias, especialmente as automotrizes. No mercado de colheitadeiras três empresas dominam o mercado: a Case New Holland, com 47%; a John Deere SLC, com 39%; e a Agco do Brasil (Massey Fergusson), com 14%. Essas empresas dominam não só o mercado brasileiro mas também o mundial.
De acordo com um estudo realizado por Vania Guimarães, em conjunto com outro professor da Federal, José Roberto Canziani, para pagar uma colheitadeira de grãos, um produto que cultiva soja e milho tem que conseguir, pelo menos, colher uma área de 500 hectares/ano. Produtores com menores áreas terão que encontrar outra saída para viabilizar a compra da máquina.
Segundo a professora, frota brasileira de máquinas está bastante sucateada, comprometendo a rentabilidade dos produtores. Por outro lado, a descapitalização impede que o produtor renove sua frota. Dados da safra 98/99, da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas (Abimaq), indicam que 31% dos produtores rurais do País não compram trataores há mais de 10 anos. Dependendo da lavoura a vida útil de um trator é de mais ou menos 12 mil horas de trabalho, o que dá em média 10 anos de uso. Para colheitadeiras a vida útil cai para 4 mil horas. Depois desse período o rendimento da máquina fica comprometido.
O mercado de venda de tratores também está na mão de poucas empresas. Hoje quatro multinacionais detêm a maior fatia. A primeira, com 32% de vendas no Brasil é Agco do Brasil (Massey Fergusson); seguida da Valmet, com 27%; e da Case New Holland, com 25%. A Jonh Deer SLC tem participação de 11%.
Sobrevivência de mercado De acordo com Vania Guimarães, o fato das empresas se concentrarem representa um estratégia para manterem-se no mercado. Especialmente no caso de empresas que investem pesado no desenvolvimento de tecnologias, como é o caso de fertilizantes, sementes e defensivos.
Em oligopólios, mesmo que não esteja caracterizado, ganha quem produz em escala, com custo menor e produtividade. Nas empresas de fertilizantes a produção em escala fica difícil para pequenas indústrias.
No organagrama do setor de fertilizantes no Brasil existem três empresas dominam a maior fatia do mercado: Bunge, Cargill e Norsk Hydro (Trevo). Destas empresas, Bunge e Cargill formam o grupo Fertifós, Fosfértil e Ultrafértil. Somente a NorskHydro, que recentemente comprou a Trevo, está fora deste esquema.
Segundo Vania Guimarães este foi outro dos setores da agricultura que mais ficou concentrado nos útlimos 10 anos. A Bunge, por exemplo, uma empresa que hoje tem sede nos Estados Unidos, é um dos maiores fornecedores de fertilizantes para o Brasil. Tem 30% do mercado brasileiro. Recentemente comprou a Serrana e a Manah. A Cargill, que faz parte do organograma junto com a Bunge, detém 8%. E a NorskHydro, isolada do restante, tem 3% de participação no mercado de fertilizantes.
Parte das matérias-primas para a preparação de adubos, como o enxofre, por exemplo, têm que ser importadas. No caso do enxofre o preço é baseado no mercado internacional. Ele é um commodity e os custos de importação são altos. Há alíquotas, custos portuários, custos lojísticos, entre outros, que acabam onerando o produto para o consumidor final em quase 40%.
A tendência do setor de adubos e fertilizantes, nos próximos 10 anos, é de crescimento e aumento de consumo, de acordo com dados da Fertipar, empresa do Paraná que atua no setor. Embora exista muito produtor descapitalizado que ao fazer corte de despesas compra cada vez menos insumos na lavoura, o produtor especializado, que produz em escala, deverá investir mais para continuar competitivo.
Técnicos acreditam que o aumento de consumo de adubos, fertilizantes e nutrientes se dará não tanto pelo aumento de áreas novas de produção, mas pela necessidade de produtividade de escala, de consumo e de rentabilidade maior.
Básicos da produçãoDefensivos e sementes não fogem à regra. De acordo com a professora Vania Guimarães, as maiores participações no mercado brasileiro de defensivos (agrotóxicos/agroquímicos) também indicam a concentração do setor.
E 2001, segundo ela, deverá começar com novas fusões. Hoje a Basf (Cyanamid) domina com 13,5%, seguida de perto pela Aventis, com 12,7% e da Novartis, com 12,3%. A Milenia, com sede em Londrina, empresa do Paraná, é a quarta em participação, com 8,1%, seguida da Monsanto, com 8% e da Zeneca e Du Pont, cada uma delas com 7,5%. A expectativa de fusão em 2001 é da união da Novartis, Zeneca e Singenta, totalizando 15,8% do mercado e superando a primeira que hoje é a Basf.
No caso das sementes a concentração de empresas tem acontecido na venda de produtos de alta e média tecnologia. No milho híbrido, por exemplo, existem 17 empresas fornecedoras, das quais, quatro delas (Monsanto, Du Pont, Novartis e Dow) possuem 86% do mercado. Já o milho comum tem 91 empresas fornecedoras de sementes. Só que o produtor, que procura escala e competitividade, através de produtividade, sabe que o híbrido poderá render até 12 mil kg/hectare, enquanto o milho comum não ultrapassa 2 mil kg/hectare.
Já a soja, por ser uma cultura de cultivares, não tem o mercado tão concentrado. Dados da Abrasem indicam que existem 377 empresas do setor, em mercados setoriais e regionais. O maior banco genético da soja ainda está nas mãos da Embrapa, que é uma empresa do Governo.
Muito embora a Embrapa esteja fazendo parcerias, com multinacionais e também com produtores, em alguns casos, não é política do Governo, ao que parece até agora, favorecer esta ou aquela empresa com a genética, resultado de sua produção de pesquisa. O objetivo das parcerias é conseguir recursos para viabilizar novos estudos.
Segundo os analistas, enquanto a Embrapa detiver a base genética, ainda se terá fôlego para controlar a influência das multinacionais. E o produtor rural pode ter um papel fundamental nesse ‘‘controle’’. Um exemplo disso é a Fundação Meridional, formada por produtores de sementes, que assinou convênio de cooperação técnica com a Embrapa, para financiar e opinar sobre novas pesquisas que precisam ser desenvolvidas.

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