Dorico da SilvaO pesquisador Ademir Henning mostra os efeitos do fungo sobre as folhas da sojaA ocorrência de oídio da soja ( Microsphaera diffusa) provocou perdas de 10% a 15% na safra passada e, segundo o pesquisador da Área de Fitopatologia do Centro Nacional de Pesquisa de Soja (Embrapa Soja), Ademir Assis Henning, a expectativa é de que a doença volte a ser problema na próxima safra.
‘‘Em nossas recentes observações de campo em várias áreas, constatamos que a germinação da soja ‘tiguera’, resultante dos grãos que ficaram no solo depois de colheita, está contaminada pela doença’’, diz Ademir. E a consequência mais provável é que o fungo seja transmitido às novas lavouras instaladas’’, diz o pesquisador.
A preocupação aumenta quando se sabe que as variedades mais plantadas em todo o Brasil, como a BR-16 e a Ocepar-14, são sensíveis a oídio. E se o clima favorecer a doença, que sempre esteve presente nas lavouras, mas nunca havia assumido um caráter epidêmico, o problema pode se agravar. O oídio é uma espécie de micose que enfraquece a planta e pode abrir a porta para a manisfestação de outras doenças de final de ciclo.
Nas áreas experimentais da Embrapa a diferença no desenvolvimento das plantas resistentes e suscetíveis
ControleAs comissões de Fitopatologia das duas reuniões técnicas que traçaram as recomendações para a soja, tanto para os Cerrados quanto para o Sul do País, resolveram este ano incluir a aplicação de fungicidas entre as orientações para esta safra.
Segundo Ademir Henning o controle da doença não é difícil e é economicamente viável, quando se usa o produto indicado e no momento correto. Os pesquisadores estão em contato com o Ministério da Agricultura, através do Departamento de Inspeção e Defesa Sanitária Vegetal, para conseguirem a autorização, em caráter emergencial, para o controle da doença com os fungicidas sistêmicos, que até agora não eram indicados para essa doença.
De acordo com os pesquisadores, foi recomendada a utilização de enxofre (2 quilos de ingrediente ativo - i.a. - por hectare (ha). Este produto é mais barato e não prejudica o meio ambiente, mas se chover tem que ser aplicado novamente, explica Ademir. Os fungicidas sistêmicos duram mais e controlam outras doenças. Os indicados são o Derosal 500 sc (solução concentrada) na dose de 0,5 litro/ha; Score 250 sc na dose de 0,3 litro/ha e Benlate 500 sc na dose de 0,5 litro/ha. Os custos desses produtos, de acordo com levantamentos feitos no comércio, é de R$ 13,37/ha para o Benlate, R$ 13,31/ha para o Derosal e R$ 32,07/ha para o Score. Nestes valores não está incluído o custo de aplicação. Quanto ao enxofre, o produto comercial à venda é o Kumulus (80% de enxofre). Utilizando-se a dose de 2,5 kg/ha, o custo seria de R$ 3,72.
Para tomar a decisão de aplicação, o produtor deve considerar três fatores: o nível da ataque da doença, a variedade utilizada e as condições ambientais, explica Ademir. As aplicações variam de uma a duas, se houver reincidência.
A ocorrência de oídio abre a porta para outras doenças de final de ciclo que atacam a soja
ManifestaçãoO oídio é uma doença que se manifesta desde o início do desenvolvimento da planta e afeta a área foliar. O produtor deve estar atento e observar as duas faces da folha, para constatar a presença do fungo, que pode ser visto a olho nu. São manchas de pó acinzentado. Segundo Ademir, somente quando a planta estiver com 40% a 50% da área foliar afetada é que deve ser feita a aplicação.‘‘Se a doença aparecer depois que a vagem estiver formada, não há mais perigo de perdas’’, completa.
A contaminação por este fungo acontece pelo vento. ‘‘Sua aparência é de um talco branco, um pó muito fino que se instala na parte aérea, e este pó é levado facilmente de uma propriedade para a outra’’, informa o pesquisador.
As condições climáticas que favorecem a presença do fungo são umidade e temperatura amenas, como aconteceu na última safra. O produtor deve estar atento e a lavoura deve ser vistoriada periodicamente, desde sua fase inicial, para que a aplicação seja feita de forma correta.
O oídio, além de provocar perdas na produção, facilita a ocorrência de outras doenças de final de ciclo como a Septoria glycines conhecida como mancha-parda, e a Cercospora kikuchii (crestamento foliar). Estas doenças foliares podem reduzir o rendimento em mais de 20%, o que equivaleria a uma perda anual de cerca de quatro milhões de toneladas de soja.
Outras doençasAproximadamente 40 doenças causadas por fungos, bactérias, nematóides e vírus já foram identificadas no Brasil. Estes números continuam aumentando, com a expansão da soja para novas áreas e como consequência da monocultura. A importância econômica de cada doença varia de ano para ano e de região para região, dependendo da condição climática de cada safra. As perdas anuais são estimadas em R$1 bilhão.
Na safra passada, por exemplo, a Coamo, a maior cooperativa agrícola do Brasil, perdeu doois milhões de sacas devido à ocorrência de oídio. Por isso os pesquisadores, na última reunião técnica, decidiram pela recomendação de aplicação de fungicidas, para que os produtores possam ter uma alternativa para ser usada na hora certa, caso o problema volte a acontecer.
Segundo Ademir Henning, a Embrapa Soja tem procurado controlar as doenças através da resistência genética, que é a forma mais eficaz e econômica, mas o número de cultivares resistentes é limitado, e no caso de oídio, existem variedades resistentes, mas as mais plantadas não têm resistência.

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