Alcover, pesquisador por natureza
Cláudia Barberato
De Londrina
Milton Alcover fará 85 anos em setembro e está preocupado em arrumar um emprego. Brincadeiras do próprio Alcover, à parte, o pesquisador está aposentado há 15 anos e, durante este tempo, tem ocupado seus dias com pesquisas na área de plantas potenciais e setores como educação e analfabetismo. Ele é um abelhudo sempre procurando coisas novas a fazer. Sempre querendo ajudar os agricultores para que diversifiquem suas produções, aumentem a produtividade e reduzam os custos de produção, classifica sua esposa Maria Teresa.
O próprio Milton admite: Fico 25 horas ligado. Mesmo depois de problemas de saúde no início do ano, a esposa conta que é preciso segurá-lo, para que não cometa exageros. Agora está tomando aulas de Informática com um dos filhos, a fim de viajar pela Internet. Enquanto isso, carrega de duas a três cadernetinhas nos bolsos do paletó, para anotar tudo o que pensa.
Sem analfabetosHoje estou preocupado com a alfabetização. Um País com analfabetos não vai para a frente. Ele exemplifica: O País tem 150 milhões de habitantes, dos quais 30 milhões são analfatebos. O restante, supõe-se que sejam alfabetizados. O Brasil tem quatro alfabetizados para um analfabeto. Se apenas um desses quatro alfabetizados resolvesse ensinar um analfabeto o problema seria resolvido. É claro que existem os que não querem aprender e os que não podem aprender.
Defensor do trigoDurante muito tempo Alcover dedicou-se à pesquisa do trigo, pela qual ficou mais conhecido. A viabilização da cultura, segundo ele, é questão de segurança nacional e também para viabilizar as culturas de verão que serão cultivadas após o cereal.
Alcover trabalhou no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em São Paulo, e no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em Londrina. O seu principal trabalho em trigo foi a criação da cultivar de trigo IAC-5-Maringá, ainda em Campinas. Quando foi lançada, a cultivar produzia mais do que outras cultivares recomendadas, por ter alta tolerância a doenças e resistência horizontal. Ela ficou 30 anos em recomendação pela pesquisa, conta Alcover.
Dada a tolerância a solos ácidos, a IAC-5- Maringá, de acordo com Alcover, permitiu a expansão da área de trigo, possibilitando plantar o cereal em áreas antes sem condições de cultivo. Hoje a IAC-5-Maringá ainda está presente nos campos de trigo, através de cruzamentos feitos para conseguir novos materiais.
Com a cultivar o trigo ganhou áreas em solos com elevado teor de alumínio tóxico, no Cerrado, nas quais ninguém imaginava que o cereal pudesse nascer e produzir bem. Além disso, chegou aos campos do México e da Austrália, conta o pesquisador. Ainda segundo Alcover, em 1986, graças a nova cultivar o Brasil quase chegou a auto-suficiência em trigo. Na época o consumo era de 7 milhões de toneladas de grãos e chegamos a produzir 6,8 milhões de toneladas.
AgroindústriaOutro trabalho de importância de Alcover foi na região de Capão Bonito (SP), onde o IAC tem uma estação experimental. Lá desenvolveu um programa voltado para a pequena indústria familiar, através da fabricação de embutidos, defumados, doces, sucos e outros produtos.
Como extensão dos trabalhos em Capão Bonito, Alcover realizou o planejamento de algumas fazendas daquela região, que ainda hoje são modelos. Foi um precursor da visão empresarial e organização de propriedades rurais, avalia Maria Teresa.
Ainda em Campinas foi o responsável pelo alerta do aparecimento de um novo vírus que atacou os pomares cítricos da região, o vírus da tristeza dos citrus, variante Capão Bonito, entre outros trabalhos.
Um dos pioneiros na área de diversificação em São Paulo e depois no Paraná, sempre procurou culturas alternativas para rotação com trigo, usando plantas potenciais e medicinais.
No Paraná Em 1973 foi convidado a trabalhar no Iapar, onde tornou-se responsável pelos trabalhos de melhoramento de trigo, tendo colaborado no lançamento de duas novas variedades: a Iapar 1-Mitacoré e Iapar 3-Aracatu.
Alcover garante que a pesquisa na área de trigo no Paraná começou graças a Raul Juliatto, primeiro presidente do Iapar. Se não fosse Juliatto, não se teria Iapar ou pesquisas no Paraná.
Alcover trouxe sua experiência do IAC de Campinas, juntou-se a Wilson Pan, que vinha do Ministério da Agricultura e ao agrônomo Florindo Dalberto e muitos outros. No Iapar, iniciou os cruzamentos das cultivares de trigo já existentes. Para cada recomendação eram feitos pelo menos 100 ensaios, num trabalho de 8 a 10 anos.
Organização dos produtoresAlcover recorda que a pesquisa trabalhava também no alerta para que os produtores produzissem e melhorassem a qualidade das suas próprias sementes, idéia que ele defende até hoje. Naquela época, conta, o sistema de melhoramento de sementes foi bem aceito e melhorou muito a qualidade. Depois disso vieram as firmas de venda de sementes e hoje a semente é um dos itens mais caros do custo de produção de uma lavoura, acompanhada do adubo.
Alcover garante que o produtor atual pode voltar a produzir as sementes que vai plantar, a fim de reduzir seus custos de produção. Também na adubação, de acordo com o pesquisador, é preciso aproveitar melhor os produtos e usar a adubação verde.
Normalmente, segundo o pesquisador, a maioria dos produtores ainda erra na hora de comprar e usar o adubo. O agricultor usa as fórmulas que as firmas vendem e quase sempre não são necessárias. Enquanto não elevar o nível de um elemento mínimo na terra não adianta por os demais elementos. Assim vai estar jogando dinheiro fora.
DiversificaçãoO trabalho com diversificação sempre teve lugar na vida de Alcover. No Paraná, ainda no Iapar, iniciou pesquisas em 1979 com plantas chamadas potenciais, em que incluiu também as medicinais. Organizou pequenos canteiros com todas as culturas imagináveis.
Os canteiros foram distribuídos em culturas oleaginosas, fibrosas, industriais e outras, onde eram analisados ciclo, pragas, doenças, tratamento, entre outros itens. De gergelim, girassol, centeio, colza, triticale, passando por alfafa, ervilha, grão-de-bico, até a mucuna, feijão da seca, entre outros, foi tudo analisado.
O trabalho foi até 1984, quando Alcover desligou-se do Iapar. Mesmo assim, ainda ficou na instituição por mais dois anos, como consultor. Depois foi para casa, pensar um pouco mais na vida, como se já não tivesse pensado bastante; e procurar coisas novas para fazer, como se já não tivesse feito bastante, ao invés de descansar.





