Araçatuba - As destilarias de aguardente estão trocando a produção da bebida pela fabricação de álcool combustível. A migração, que começou tímida há alguns anos, ameaça agora colocar em risco até o fornecimento de cachaça para grandes engarrafadoras do País, segundo a Cooperativa dos Produtores de Cana, Aguardente, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copacesp). ''Nessa safra, que começou em junho e termina em maio de 2007, já estamos precisando 'importar' 5 milhões de litros de cachaça de Goiás para atender nossos pedidos'', diz o assessor da Copacesp, Rubens Humberto Martins.
A Copacesp representa 20 produtores paulistas que produzem 140 milhões de litros de cachaça, vendidos para cerca de 30 marcas diferentes nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. O estado produz cerca de 340 milhões de litros de cachaça por safra. Cerca de 100 milhões estão nas mãos de produtores independentes e outros 100 milhões da Cachaça 51, da fábrica de bebidas Muller, disparada a maior compradora de aguardente do País.
Para cada litro de álcool combustível é possível se fazer dois de cachaça. O litro do álcool custa em torno de R$ 0,85 contra R$ 0,45 da cachaça. Mesmo assim, os produtores recorrem à produção de combustível porque as usinas remuneram rapidamente e facilitam a negociação, o que não acontece com o comércio de cachaça. ''Eles recebem na hora, toda a produção da safra, enquanto a cooperativa consegue pagar a produção somente em 10 vezes'', diz.
Outra vantagem é que os produtores se livram das investidas das engarrafadoras e de atravessadores que compram o produto para vender no mercado informal sem recolher os 12% de impostos. Além disso, o preço do açúcar, que nesta safra atingiu preços recordes, também favorece a migração para o setor.
Para tentar amenizar a redução, a Copacesp está tentando convencer pequenos produtores de cana-de-açúcar a entrar na produção de cachaça. ''Vamos reduzir prazos de pagamento para quem entregar até 1 milhão de litros'', diz Martins.
De acordo com Martins, grandes produtores ameaçam deixar o setor. ''Na última reunião do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), em Brasília, os comentários eram de que a Muller transformaria parte da cana destinada para a produção da Cachaça 51 em álcool combustível'', afirmou.
Há alguns dias, a Ypióca, tradicional produtor de cachaça do Nordeste anunciou recentemente a entrada na produção de álcool combustível com investimentos em duas unidades produtoras no Ceará e no Rio Grande do Norte.

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