As perdas reais na pecuária, em todo o processo, do nascimento até o abate, são ocasionadas por um manejo inadequado. As falhas poderiam ser evitadas ou reduzidas se houvesse maior preocupação com a mão-de-obra que trata dos animais e no gerenciamento da propriedade. A opinião é do pesquisador da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), Kepler Euclides Filho.
''São práticas que não demandam investimentos. Saber curar bem um umbigo, conter os animais, vacinar ou aplicar medicamentos no local correto exige treinamento. Essas perdas, e tantas outras, podem ser evitadas com a profissionalização tanto de quem lida em todo o processo da pecuária, da criação até a venda, quanto de quem administra o negócio.''
De acordo com o pesquisador, existe uma série de erros que vão acontecendo ao longo do processo resultando em queda na eficiência e que poderiam ser corrigidos pelo melhor gerenciamento da propriedade e uso de mão-de-obra qualificada.
Do nascimento ao abate Segundo o pesquisador, as perdas na pecuária começam na parte reprodutiva dos rebanhos, pela falta de avaliação de touros e vacas que irão entrar em idade de cobertura. A pecuária trabalha com um tripé: genética, nutrição e sanidade. Todos estes pontos devem estar bem ajustados. Se um deles não vai bem, os outros não funcionam. É esse ajuste que o pecuarista deve manter na sua atividade. Animais mal alimentados têm índices de fertilidade reduzidos, mesmo que sejam da melhor genética e ficam mais sensíveis a doenças.
Hoje a mão-de-obra gerencial é considerada um capital na pecuária e precisa estar ajustada a demanda por produtos de qualidade, com perdas reduzidas em todo o processo produtivo, opina o pesquisador. Alguns pecuaristas, segundo ele, já fazem esse bom gerenciamento, mas é preciso expandir essa mentalidade. ''Hoje temos no Brasil ilhas de desenvolvimento de pecuária, mas a média geral ainda trabalha com baixo índice de eficiência.''
A adoção da mentalidade empresarial, alerta Kepler, independe do tamanho da propriedade, número de animais ou conta bancária do pecuarista. ''É claro que quanto maior o rebanho, menor o risco, porque se ganha no volume, mas isso não é desculpa. A eficência é fundamental e faz diferença para manter-se na atividade.''
Médias baixas A média hoje de fertilidade do rebanho brasileiro está na faixa dos 60%, enquanto que o ideal seria chegar aos 80%. ''Existem propriedades em que este índice é de 90%, o que prova que existe potencial de melhorar esta média, sem que para isso seja necessário fazer altos investimentos. É preciso apenas uma correção, ou maior atenção, no gerenciamento do negócio,'' adverte o pesquisador.
A perda média de animais, do nascimento até a desmama, é hoje de 8% no País. E essas perdas ocorrem por vários fatores, entre eles, falha na alimentação dos recém-nascidos; ou mesmo a falta de cuidados básicos como a cura correta do umbigo. O ideal é ter índice de mortalidade entre 4% e 5%, segundo o pesquisador.
Há ainda perdas por manejo, como a alta infestação de carrapatos, bernes e outros parasitas. Calcula-se que 80% do rebanho brasileiro, nas áreas de maior infestação, são atingidos por esses parasitas. Sabe-se que não é possível erradicá-los, mas existe formas de fazer um controle, a fim de que possam influenciar cada vez menos na vida do animal, não provocando desconforto e afetando o desenvolvimento.
Experiência O veterinário e pecuarista Alexandre Kireef, de Londrina, que tem propriedades no Paraná e Mato Grosso, acredita que a falta de informações do que acontece no dia a dia da propriedade pode reduzir a eficiência da pecuária. ''A informação é fundamental para saber erros e acertos.'' Kireef defende também o uso de mão-de-obra treinada e comprometida com o manejo diário do rebanho. Para ele mão-de-obra qualificada, gerência e monitoramento podem amenizar e reduzir perdas na atividade, mesmo quando são atingidos por fatores externos, como os climáticos.
Kireef implantou nas propriedades da família um tipo de ''ficha ponto'', onde os funcionários anotam as informações de todo o trabalho feito durante o dia. As anotações são conferidas de perto por Kireef, que visita constantemente as propriedades. ''Mesmo assim existem falhas, gostaria de ser mais eficiente.''
O gerenciamento mais de perto do negócio fez com que o pecuarista descobrisse, por exemplo, que poderia economizar 7% na ração que estava sendo fornecida ao rebanho de gado nelore criado numa das propriedades. Com um cocho mal dimensionado havia desperdício de alimento. Com a reforma e adaptação de alguns e a construção de novos cochos, o pecuarista constatou que o gado consumia menos e continuava obtendo bons índices de desenvolvimento.
Revolução aninmal A pecuária brasileira, de acordo com Kepler Euclides Filho, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, está vivendo um momento promissor e precisa aproveitar a oportunidade. Ele calcula que nos próximos 20 a 25 anos poderemos vivenciar o que chama de ''Revolução Animal''.
Segundo o pesquisador, a agricultura na década de 70 viveu a Revolução Verde. Agora será a vez da pecuária. Se na Revolução Verde ocorreu um incremento no uso de insumos e produtos agrícolas resultantes do aumento de oferta, vamos vivenciar agora, de acordo com o pesquisador, um aumento no consumo de produtos de origem animal. ''Será uma revolução com aumento pela demanda de alimentos de origem animal em todo o mundo por parte dos países em desenvolvimento, para atender o aumento da população.''
Os países desenvolvidos, de certa forma, têm hoje consumo e crescimento da população estabilizados, segundo o pesquisador. Mas os países em desenvolvimento, afirma Keppler, terão maior demanda por alimentos e o Brasil por várias condições (área, clima, etc) tem plena capacidade de atender esta demanda e ser o grande fornecedor de produtos de origem animal para ao mundo.

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