Ah, o sítio da minha infância...
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de outubro de 2019
Zezé Volpini
Dia desses fui a um supermercado em Londrina e comprei pamonha. Naqueles quiosques no meio do supermercado. Quentinha. Foi aí que me lembrei da tia Aurora e do sítio em Sabáudia.
Tia Aurora era irmã da minha mãe. O irmão delas, tio Edgar, trabalhava no mercado Vila Real, também em Londrina. De vez em quando, no fim de semana, ele conseguia lá um caminhão, atravessava umas tábuas na carroceria, pra servirem de bancos - que naqueles tempos não existiam essas regras de segurança de agora - e lá íamos nós. A enorme família dele, a minha, maior ainda: mãe, pai e oito barrigudinhos, e mais alguns convidados.
Já era uma festa na estrada. Cantoria, risadas. Passava Cambé, Rolândia, Arapongas, Vila Reis, Sabáudia... E o sítio. Ah, o sítio da minha infância.
Depois da euforia da chegada, dos abraços, da confusão toda, era hora de apanhar milho verde na roça. A criançada ajudava nessa tarefa, e também na lida seguinte, limpar a espiga, tirar o cabelo do milho, a palha, separar as que seriam usadas na pamonha. O resto era com os adultos.
Hora de cortar, ralar, moer, separar o leite do milho, preparar a massa, encher os saquinhos feitos com palha, amarrar e colocar no tacho de água fervendo. Tudo regado a conversas, cantoria, risadas.
A criançada só voltava à cena ao fim desse cerimonial. Enquanto isso... bem, a gente fervia mais que o tacho de pamonha.
No sítio criava-se porcos. O cheiro do chiqueiro impregnava na pele, mas criança liga lá pra isso? E o bando se mandava pra lá. Os porquinhos encantavam. A gritaria deles se misturava com a nossa euforia. As porcas mamães eram imensas, deitadas no chiqueiro e amamentando os porquinhos. Cena bucólica, inesquecível.
Dali, era correr para brincar no laguinho formado pela mina d'água. Uma nascente dentro do sítio, límpida como não se vê mais. Dava pra beber a água e bebíamos. Era dessa nascente que, canalizada, ia água para a cozinha, para o banheiro, para o tanque de lavar roupas.
A pamonha tá pronta? Não. Então havia tempo para uma correria no terreirão de café e para umas voltas a cavalo. Os mais corajosos, claro, porque sempre tinha alguém com medo (não me lembro em qual grupo eu me encaixava... hahaha). E os medrosos, então, tornavam-se alvo das gozações dos primos que moravam no sítio.
Lá, entre os adultos, o tacho ainda fervia, mas o chamado chegava alto. Era a melhor hora. Comer pamonha. Doce, salgada, com queijo, sem queijo, porque em família grande cada um gosta de um jeito.
Ah, e tinha o bolo de milho da tia Alda, feito com um pouco do milho roubado da pamonha. Macio, cremoso por dentro e com uma casquinha crocante por fora. Assado em fogão de lenha. Como não lembrar dele? Nunca mais comi um igual. E nem pamonha igual.
Zezé Volpini, jornalista