Ah, Dorva, Dorvalina...
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de novembro de 2018
Idiméia de Castro 
Baixinha, gordinha, cabelos brancos parecendo flocos de algodão, olhar doce, 10 filhos, 21 netos, 16 bisnetos e está com 92 anos - disse que "está no lucro" há muito tempo. Ela é a minha querida mamãe. Seu nome Dorvalina, mas os amigos a chamam de Dorva.
Era de Cássia dos Coqueiros (SP), casou-se com o primo José Olegário e vieram para Cornélio Procópio na casa do Tio Antônio, com quem aprenderam a lidar no comércio. Seguiram depois para Sertaneja, um lugarejo sem água encanada, luz elétrica, muito pó, barro e com todos aqueles problemas de uma cidade que está começando.
Mamãe trabalhava muito. Não tinha empregada e quando ia lavar roupa, colocava o Dadá (o Santana, taxista na Concha), eu e o Idivar amarrados naquelas cadeirinhas altas de madeira bem a sua frente, enquanto fazia o serviço em duas tábuas de bater roupa rodeadas por duas tinas de água. Tínhamos o quintal de dois terrenos para brincar. No final da tarde, colocava-nos naquelas tinas cheias d'água para tirar a sujeira grossa de terra. Depois íamos para o banheiro terminar de tomar banho. Mais tarde, pôde ter ajudantes na casa e foi trabalhar com o papai em nosso armazém de secos e molhados.
Aos 7 anos, entramos na escola sem saber nada; começamos do zero fazendo exercício motor; enchíamos páginas e páginas de caderno de " bolinhas e cobrinhas". Também quando chegava lá por setembro, com o dedinho embaixo das palavras, meio gaguejando, já líamos para a professora as lições da cartilha Caminho Suave. A nossa mãe nos colocava ao redor da mesa grande da cozinha e nos ajudava nas tarefas escolares. Passava probleminhas usando os frangos, os porcos e os ovos da vovó do sítio para nós entendermos. Tomava a tabuada e a conjugação dos verbos. Contava histórias, lia gibis; quando entramos no ginásio, comprou coleções da Família do Tio Patinhas, de José de Alencar, do Machado de Assis e todos líamos. A Mamãe cuidou bem de nós.
Periodicamente nos levava ao pediatra, o Dr. Nascimento, lá em Cornélio e também no seu Dito Dentista de Sertaneja. Quando um de nós fazia aniversário, era aquela festa! Uma semana antes, começava fazer bolachas, palitinho francês, beliscão, cajuzinhos e guardava em grandes latas. Na véspera, ela fazia as balas de coco, espichava, cortava e nós todos ajudávamos a embrulhar em papel de diversas cores. O bolo era feito pela Mitiko Nagano, a boleira de Sertaneja. Guaraná e sodinha não faltavam porque vinham da nossa fábrica de refrigerantes. Mamãe era muito dedicada à família, ajudava nosso pai lá no sítio no Mato Grosso. Dirigia caminhão, trator, ensinou meus irmãos a dirigir. Era parceira e companheira do papai em tudo.
Aqui em Londrina também foi muito ativa, fez parte do ramo das Mães de Schoenstatt, do Roupeiro de Santa Rita, Ministra da Eucaristia na Catedral, nos Sagrados Corações e Vicentina. Este ano, uns dias antes do seu aniversário, disse que gostaria que a data fosse publicada na FOLHA. Na hora, enviei um e-mail para o Militão, que foi meu diretor no Colégio São Paulo. Ele, gentilmente, atendeu. No dia, em destaque, lá estava a publicação do aniversário dela. De tão feliz que ficou, não largou o jornal o dia todo. Mamãe é assim, faz quebra-cabeças, palavras cruzadas, crochê em pano de prato, lê a FOLHA, a Veja e a Isto é. Esta é a minha querida mamãe, a Dorvalina, a Dorva para os amigos.

Idiméia de Castro, leitora da FOLHA.
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