Agropecuária ano 2. Feliz ano 3.
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de dezembro de 2002
Ágide Meneguette (*) 
No final de novembro, em solenidade realizada no Ministério da Agricultura, o ministro Pratini de Morais assinou o credenciamento da Secretaria da Agricultura como apta a proceder a certificação de origem do gado paranaense. Fechar o ano com este acontecimento mostra bem o que foi, de um modo geral, o ano de 2002 para a agropecuária de nosso Estado.
Excetuando produtores independentes de frango e suínos e os que perderam a maior parte das suas colheitas de trigo e milho ''safrinha'', não dá para reclamar deste ano. Basta atentar para a evolução do Valor Bruto da Produção agropecuária para sentir os grandes avanços que obtivemos não apenas na última safra , mas de 1995 para cá. Em 1995 o VBC tinha sido de R$ 11,2 bilhões, a valores correntes - isto é, eliminando os efeitos inflacionários. No ano passado, colhemos uma safra que valeu R$ 14,7 bilhões, isto é, 31% maior, em apenas 7 anos.
Para 2002, os dados preliminares estimam que o Valor Bruto da Produção alcance R$ 18 bilhões. De uma safra para a outra, o ganho da agropecuária poderá ter sido de 22,5%; um novo recorde. Vendo por essa ótica, não dá para reclamar.
Mas eu reclamo, e justifico. É bem verdade que a agropecuária do Paraná se desenvolveu muito nestes últimos anos; incorporou tecnologia, aprendeu a comercializar, soube enfrentar os desafios de um mercado aberto, respondeu aos estímulos da exportação.
Mas esta performance espetacular de 2002 tem muito a ver com a disparada do câmbio, que favoreceu os nossos produtos de exportação e contaminou os preços dos produtos de comercialização interna. É por isso que acho que nossa euforia deve ser mais contida, já que dificilmente isso irá se repetir. Provavelmente já no primeiro semestre de 2003 o preço do dólar deverá ajustar-se a um valor verdadeiramente compatível.
Não significa que será um desastre; muito pelo contrário. O câmbio continuará favorecendo as exportações. Possivelmente não mais como o fez este ano, mas ainda assim tornando nossas exportações interessantes e lucrativas.
O que reclamo é que esta queda previsível do câmbio poderia ser mais do que compensada por medidas que reduziriam as perdas de renda dos produtores após a porteira. Refiro-me principalmente a ações que podem reduzir os custos de transferência - os altos preços dos fretes rodoviários, os pedágios indecentes, a ineficiência da ferrovia, o ainda alto custo das operações portuárias. Tudo isso tira renda dos produtores, uma vez que para as commodities o que vale é o chamado preço CIF, isto é, o preço do produto no porto de destino.
A partir deste preço CIF - que vale para todos os concorrentes mundiais - deduz-se o transporte marítimo, o porto, o frete interno, o lucro do intermediário, o pedágio, a tributação indireta e outros penduricalhos que deprimem o preço pago ao produtor rural.
Hoje há uma consciência muito clara desta e de outras questões que podem ser resolvidas - algumas delas rapidamente, outras a médio prazo. Resta esperar que haja vontade política para isso.
De nossa parte, de parte do sistema sindical, vamos continuar pressionando os governos para que providenciem a adequação da nossa infraestrutura às reais necessidades de competitividade. Que se aprove no Congresso, o mais urgentemente possível, o novo seguro de renda do produtor, que vai eliminar grande parte dos riscos da agricultura e vai dar um grande impulso ao nosso desenvolvimento rural.
Vamos insistir que o governo do Estado continue o grande trabalho de dotar o Paraná de um sistema de defesa sanitária - com rastreabilidade vegetal e animal - que nos dê credibilidade internacional e abra novas portas para nossas exportações.
O Paraná tem experimentado um espetacular desenvolvimento no campo, mas tem muito ainda a crescer e poderá fazer muito pelas nossas regiões interioranas, onde moram mais de 6 milhões de habitantes, quase 70% da população do Estado, que dependem, direta ou indiretamente, das atividades rurais.
Se o ano de 2002 foi espetacular em termos de renda, vamos esperar que os próximos sejam ainda melhores e mais seguros. Que a renda do campo não dependa tanto das especulações internacionais nem do clima, mas de ações que governos, produtores rurais e suas entidades podem concretizar.
(*) Ágide Meneguette é presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná - FAEP)


