Transgênicos: ignorância ou preconceito?
Mais de 180 milhões de hectares (Mha) são cultivados com lavouras transgênicas, mundo afora. A soja é a mais transgênica das culturas, seguida pelo milho e pelo algodão. Estados Unidos, Brasil e Argentina são os países que mais cultivam plantas transgênicas. Os primeiros cultivos transgênicos surgiram na década de 1990, nos EUA.
Ainda temos resistência de parte de muitos cidadãos – europeus, em especial – sobre o consumo desses produtos, como se ainda fosse possível consumir carnes, óleos ou farelos livres de moléculas modificadas geneticamente. A bem da verdade, esses cultivos trouxeram benefícios ao ambiente e nenhum risco à saúde de humanos e animais, até a presente data. E mais, além dos benefícios ambientais decorrentes da menor necessidade de aplicação de defensivos, eles incrementaram os ganhos financeiros do agricultor e facilitaram as tarefas de controlar as pragas, doenças e invasoras nos campos de produção.
Variedades transgênicas podem, eventualmente, ser mais produtivas do que as convencionais, mas se isto acontece não é necessariamente por causa da transgenia, mas pela combinação exitosa de outros genes não transgênicos, visto que as modificações genéticas introduzidas nas plantas transgênicas até a presente data e que estão no mercado, tiveram o objetivo de conferir-lhes resistência aos agrotóxicos que controlam as invasoras, as pragas e as doenças e não o aumento da produtividade, que pode acontecer pelo efeito indireto desses controles.
Quando dos primeiros plantios clandestinos de soja transgênica no Rio Grande do Sul (nos anos 2000), utilizando sementes contrabandeadas da Argentina (soja maradona), houve a percepção entre os produtores gaúchos de que as maradonas produziam mais, embora elas fossem geneticamente inferiores às variedades comerciais brasileiras. Elas efetivamente produziam mais porque a transgenia lhes conferia total controle das invasoras, presentes nas lavouras dos gaúchos.
O temor pelo consumo de alimentos transgênicos não se justifica mais. Eventuais produtos indesejados são identificados e descartados antes de sua aprovação para produção comercial.
A Academia de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA divulgou em 17 de maio relatório em que afirma que os transgênicos são seguros para alimentação humana, animal e para o meio ambiente. A instituição reúne cientistas prestigiados e, desde 1863, serve de conselheira para as decisões do governo norte-americano. Para compor o relatório, o comitê de pesquisadores examinou mais de mil publicações acadêmicas sobre organismos geneticamente modificados, ouviu mais de 80 manifestações em audiências públicas e seminários e analisou mais de 700 comentários enviados pela população. O texto afirma que os especialistas não encontraram diferenças que apontem para um maior risco dos alimentos transgênicos quando comparados com variedades convencionais. Rejeitar os transgênicos seria medo dos riscos, ignorância ou preconceito!

Amélio Dall’Agnol é pesquisador da Embrapa Soja

mockup