Das grandes culturas produtoras de grãos, a soja é a que mais cresce em nível global, como consequência da forte demanda mundial por carnes e óleo. Com o crescimento econômico, aumentou a renda per capita da população, que passou a consumir menos grãos e mais carnes, produzidas, principalmente, a partir do farelo proteico da soja.
Foi na China que a produção comercial e consumo da oleaginosa tiveram início. Registros indicam o uso da soja na dieta do povo chinês há mais de 5 mil anos, quando já era considerada um dos cinco grãos sagrados da cultura chinesa. Até meados dos anos 1950, a China dominou a produção e o consumo de soja.
Os EUA, após introduzirem a soja em seu território nos anos 1920, utilizaram-na primordialmente na produção de feno para bovinos até início dos anos 1950. Em 1960, o país já respondia por mais de 50% da produção mundial do grão e em 1970, mais de 70%, quando Brasil e Argentina entraram nesse mercado, reduzindo a participação norte-americana a pouco mais de 30%. Quase 90% da safra 2014/15, estimada em 315 milhões de toneladas, se concentra em países da América.
Segundo o USDA, 113 milhões de toneladas de soja foram exportados em 2014 para dezenas de países, mas a China arrematou, sozinha, 74 milhões de toneladas (65%). Da soja em grão exportada pelo Brasil em 2014, 71,7% foram para o mercado chinês, assim como 60% do óleo. A China não importou farelo porque privilegia a importação do grão para processá-lo e agregar valor em seu território.
Seria quase impensável um país ser grande produtor de carnes sem ser, também, um grande produtor da matéria-prima que a produz . EUA, Brasil, Austrália e Argentina são grandes produtores de carne bovina, que não depende da soja, pois os bovinos comem mais pasto. Mas EUA e Brasil também são grandes produtores de suínos e aves, resultado de sua grande produção de soja e milho. A China é grande produtora de suínos e de aves, mas produz pouca soja, o que a faz dependente do mercado externo, que pode falhar. Em compensação, produz muito milho que, junto à soja, constitui a ração que engorda os suínos e os frangos.
O problema da China, com sua dependência de soja importada, só não é maior, pois a carne é consumida pelo mercado interno. Se dependesse do mercado externo, sua carne poderia não competir, pelo eventual alto preço da soja importada.
A produção de soja em larga escala, a partir da década de 1970, foi uma benção para a economia do Brasil. Foi a partir dela que o setor agrícola brasileiro se transformou, gerando enormes saldos comerciais. Só em 2014, as exportações deixaram um superavit de US$ 80,2 bilhões. Do total exportado pelo Brasil (US$ 225 bilhões), a soja foi a que mais contribuiu na geração desse montante, com US$ 31,4 bilhões. A soja é o principal produto agrícola brasileiro e o principal item na pauta das exportações do País. Podem chamá-la de "o fenômeno do Brasil". Ela merece.

Amélio Dall’Agnol é pesquisador da Embrapa Soja

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