AGRONEGÓCIO RESPONSÁVEL
O problema da resistência de plantas, insetos ou micro-organismos a herbicidas, inseticidas ou fungicidas é antigo, mas apenas recentemente, com a chegada dos cultivos transgênicos resistentes ao herbicida glifosato (soja, milho e algodão RR), o problema assumiu, aparentemente, maior relevância para o agricultor. A resistência da buva e do amargoso ao glifosato é um bom exemplo do problema, cuja ocorrência pode comprometer a sustentabilidade da tecnologia, se medidas de controle não forem manejadas adequadamente.
A resistência das plantas daninhas ao glifosato está sendo mais percebida do que a resistência de insetos aos inseticidas ou de doenças fúngicas aos fungicidas, porque existem pesticidas alternativos para controlar insetos e doenças, o que não acontece com a soja RR, visto inexistir, ainda, soja transgênica comercial resistente a outro herbicida. Se existisse, a solução estaria na alternância do cultivo da soja RR com essa outra soja transgênica. Assim, as plantas daninhas resistentes ao glifosato seriam eliminadas pelo herbicida que controla as plantas daninhas dessa outra soja, de vez que, dificilmente uma mesma planta seria resistente a dois produtos com princípios ativos diferentes.
É preciso entender que, na natureza, qualquer população de seres vivos da mesma espécie, sejam eles humanos, plantas ou animais, embora tendo uma constituição genética (DNA) muito parecida, não são idênticas. Podem parecer iguais, mas não o são. Qual a diferença visível, por exemplo, de uma planta de buva ou de amargoso resistentes ao herbicida glifosato, das demais plantas suscetíveis da mesma espécie? Nenhuma.
E o que acontece quando uma planta daninha, num universo de bilhões de indivíduos da mesma espécie, resiste à aplicação de dose letal de determinado herbicida? Respondo: a partir dessa geração, se essa planta não for eliminada, ela será a única daquela população a ter descendentes, sinalizando que, nas próximas gerações, só os descendentes desse indivíduo sobreviverão à aplicação de doses letais desse produto, fazendo com que eles predominem na infestação futura dessa espécie na lavoura onde ocorreu a seleção, além de, com o tempo, disseminarem-se, infestando lavouras vizinhas. Fique claro, no entanto, que plantas daninhas não resistentes continuarão a aparecer nessa lavoura, oriundas de sementes locais ou introduzidas de lavouras próximas pela força do vento.
A resistência ocorrida com a soja RR deverá repetir-se com a soja Bt, se o agricultor não cumprir com a recomendação de deixar uma área cultivada com soja convencional (pode ser RR), próxima às áreas com soja Bt. Essa área, denominada de refúgio, serve como criatório de lagartas suscetíveis ao controle da soja Bt, que, cruzando com as lagartas resistentes eventualmente surgidas na lavoura Bt, produzirão indivíduos suscetíveis, os quais continuarão sendo controlados pelos mecanismos de resistência da soja Bt. Eventualmente, poderá acontecer de uma mariposa (o adulto da lagarta) resistente cruzar com outra mariposa resistente e produzir indivíduos igualmente resistentes, o que é muito raro dado a distância que deve existir entre os poucos indivíduos resistentes e a maior probabilidade de encontrar parceiros suscetíveis.
Pretendendo facilitar o entendimento do problema, podemos afirmar que, se fosse possível testar a resistência de toda a população humana à dose letal de determinado veneno (nem Hitler faria isso), certamente que alguns indivíduos sobreviveriam, igual acontece com as pragas dos nossos cultivos. Neste caso, as gerações futuras de humanos seriam imunes à dose letal do veneno que eliminou os suscetíveis da geração testada, visto que as pessoas oriundas a partir de então seriam descendentes dos poucos indivíduos resistentes que sobreviveram.
As plantas daninhas que resistem ao herbicida, assim como as bactérias que resistem aos remédios, são produtos do mesmo processo de seleção.
Amélio DallAgnol é pesquisador da Embrapa Soja





