AGRONEGÓCIO RESPONSÁVEL - O futuro da população e dos alimentos
De acordo com a FAO, a comida ainda falta na mesa de quase um bilhão de pessoas, mundo afora. Por incrível que pareça, a maioria desses subnutridos vive no campo, perto da produção, mas são incapazes de auto abastecer-se. Passam fome porque são produtores ineficientes ou porque, exercendo outras atividades, não conseguem renda para adquirir o alimento de outrem.
Para quem nunca passou fome, esta palavra não significa muita coisa. Lembro-me da intolerância dos meus pais, já na terceira geração de brasileiros de origem italiana, quanto a deixar comida sobrando no prato. Este era um hábito simplesmente inaceitável, dado o trauma que haviam herdado dos seus avós e bisavós, devido ao fantasma da falta de comida que os fez migrar para o Brasil.
Estima-se que lá pelo ano 2050 a população humana alcançará os nove bilhões de pessoas e entrará em equilíbrio, igualando o número de nascimentos com o de óbitos. Já são comuns famílias optando por nenhum ou apenas um filho. Dois filhos por família é o mais comum, mas isto é apenas suficiente para repor os pais e manter a população estável.
Com a população estabilizada, cai a necessidade de aumentar o fornecimento de mais alimentos. Mas isso não acontecerá logo após a estabilização da população, pois os idosos de 2050 certamente viverão mais, como resultado da melhoria nas condições de vida, o que lhes possibilitará ter uma alimentação mais abundante e saudável, além de melhor acesso à moderna medicina.
Não há riscos de que falte alimento no planeta, a menos que ocorra alguma catástrofe ambiental imprevisível. As previsões de Malthus (1789), de que a população cresceria mais do que nossa capacidade de produzir alimentos, perdeu a validade com os desenvolvimentos tecnológicos que vieram depois das catastróficas previsões dele. O que para muitos falta é dinheiro para adquirir o alimento, que muitas vezes é desperdiçado no caminho entre o campo e a mesa.
Uma importante preocupação da sociedade é com a sustentabilidade da produção, pois é necessário preservar o recurso natural que provê o alimento que hoje consumimos, para que as gerações futuras também possam produzir seus próprios alimentos e não sejam condenadas à fome pela imprevidência das atuais gerações.
Embora estudos indiquem estabilização da população após 2050, há outras análises indicando que a África poderá triplicar sua população e o planeta chegar a 12 bilhões de cidadãos, em 2100. Se isto acontecer, a produção de alimentos precisará crescer significativamente, o que, estimamos, não será problema, com o uso das modernas técnicas de produção hoje disponíveis, além da disponibilidade, ainda, de grandes áreas aptas para produzi-los, principalmente no Brasil e na própria África. Segundo a ONU, a demanda adicional por alimentos crescerá 20% na próxima década e 40% desse montante, se estima, deverão ser fornecidos pelo Brasil, dada a sua disponibilidade de terras e do domínio tecnológico para produzir até três safras em regiões tropicais com baixas latitudes.
É injusto que, com a disponibilidade das modernas tecnologias de produção e da abundância de terras aptas para produzir alimentos, ainda tenhamos gente passando fome, resultado, não da nossa incapacidade para produzir mais alimentos, mas da injusta distribuição das riquezas.
Amélio DallAgnol é pesquisador da Embrapa Soja





